Vasos de Honra

terça-feira, 4 de outubro de 2016

RESPEITANDO OS DONS DOS OUTROS




Leitura Bíblica: Romanos 12: 3-8

Introdução: Temos falado sobre as “misericórdias de Deus”, e, com a consciência delas em nossa vida, devemos nos sentir constrangidos a entregar a nossa vida a Ele numa consagração irrestrita, como uma manifestação de agradecimento. Sim, temos sido enriquecidos em tudo. Mas devemos prosseguir. Consagração necessita que tenhamos uma comunhão espiritual com Deus, pois “ a intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” – a sua vontade, (Sl. 25:14). E, para ter essa intimidade com Deus, é necessário que tenhamos uma vida santa e irrepreensível, uma santidade que demonstra a realidade da nossa vida cristã.

Mas, como podemos entender o sentido dessa santidade de vida? Em primeiro lugar, santidade é a renovação da imagem de Deus em nossa vida. O pecado desfigurou a imagem na qual fomos criados, mas, agora, mediante a regeneração pela ação do Espírito Santo, essa imagem está sendo remoldada em nós. Deus nos predestinou para que sejamos “conformes à imagem de seu Filho” (Gl. 4:19).  Em segundo lugar, santidade necessita de uma obediência singular à prática consciente da vontade de Deus. Cristo confessou: “Não procuro a minha vontade, e sim daquele que me enviou” (Jo. 5:30). E nós, que somos os seus seguidores, não podemos ter uma disposição que entra em choque com aquela do nosso Mestre. “Tudo quando fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo” (Cl. 3:23-24).

Por que essa ênfase sobre a santidade em nossa vida? Porque vivemos no meio de pessoas cujas vidas foram dotadas com diferentes capacidades. Alguns desses dons têm um destaque maior do que outros, porém, todos têm a sua própria importância e foram distribuídos  pelo Espírito Santo para o bem total da nossa sociedade. Portanto, como cristãos, o nosso dever é respeitar os dons que outras pessoas têm. Esse respeito é uma das manifestações da nossa santidade. Vamos examinar os princípios de respeito contidos no texto da nossa leitura, e, ao mesmo tempo, sentir a importância de revelar  uma vida santa e irrepreensível no meio dessa diversidade de dons. “O amor é paciente, é benigno; o amor não se arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece; não se conduz inconvenientemente” no meio de pessoas que têm dons superiores,   (1Co. 13:4-5).

1. A Distribuição dos Dons Vs. 3-6a. O Espírito Santo é o autor dos dons que cada pessoa tem, e foram distribuídos “ como lhe apraz, a cada um, individualmente” (1Co. 12:11). Cada dom, apesar das diferenças, tem a sua própria importância, portanto, devemos evitar todo tipo de comparação que tende a exaltar um e a inferiorizar o outro. Nesse contexto, somos exortados: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um”. A exortação se refere a dois perigos insidiosos. Primeiro, o orgulho humano. O meu dom é mais importante do que o seu, portanto, mereço receber maior honra e destaque entre o povo. Tal pessoa está se esquecendo de que a  sua capacidade é um dom que foi concedido pela graça de Deus, e, portanto, pode ser revogado. “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias como se o não tiveras recebido?” (1Co. 4:7). Sem o dom de Deus, seríamos incógnitos e desprezados por causa da ausência de qualquer capacidade específica. O Ap. Paulo confessou: “Mas pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co. 15:10). Notemos como o Apóstolo deu todo o crédito à graça de Deus, que operou eficazmente em sua vida. Assim, devemos pensar com moderação e honestidade. O segundo perigo é igualmente insidioso, porque não procura reconhecer a existência de um dom da parte de Deus. O que eu posso fazer é tão insignificativo que não vale a pena ser reconhecido  como algo útil. Essa pessoa é semelhante ao servo mau e negligente, que escondeu o talento que recebera, (Mt. 25:24-27). Novamente, temos que pensar com moderação e honestidade, lembrando que os dons são distribuídos “ a cada um segundo a sua própria capacidade” (Mt. 25:15). A frase: “segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” tem este pensamento: O cristão, ao contemplar o dom que o Espírito Santo lhe confiou, pergunta: Como  posso usar esse dom para a glória de Deus? E, percebendo uma oportunidade que corresponde com o dom que recebeu, ele logo age pela fé para que o propósito de Deus se cumpra mediante a sua instrumentalidade. 

Para ilustrar a diversidade dos dons que cada pessoa recebe, pois ninguém ficou esquecido na distribuição e desprovido de qualquer capacidade, o Apóstolo usou o corpo humano que tem muitos membros, alguns visíveis e outros invisíveis, alguns com uma importância e outros com menos valor, porém, todos têm o seu lugar e utilidade no corpo; e se um membro estivesse faltando, mesmo sendo o menor, o  corpo seria incompleto e incapaz de seu pleno potencial. “Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada”. Vamos lembrar que nós, como membros da Igreja, somos “ membros uns dos outros”. Quando um membro está faltando, todos sentem a sua ausência; “se um membro sofre, todos sofrem com ele”. Mas, por outro lado, “se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1Co. 12:26). Portanto, na vida da Igreja, somos exortados: Consideremo-nos também uns aos outros, para os estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações, e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb. 10:24-25).

2 A Diversidade dos Dons, Vs. 6b-8. Aqui, o Apóstolo fala de apenas sete dons. Existem muitos outros, porém, esses sete são suficientes para ilustrar a diversidade dos dons que o Espírito Santo pode derramar sobre o seu povo, para que “seja tudo feito para edificação” (1Co. 12:26). Vamos examinar, ligeiramente, o sentido geral de cada um desses dons, lembrando que eles são concedidos para serem usados para a glória de Deus.

1)      “Se profecia, seja segundo a proporção da fé”. Profecia, em seu sentido simples, significa a declaração da Palavra de Deus, seja qual for o seu assunto. Somos exortados: “Procurai com zelo, os melhores dons” (1Co. 12:31). A profecia, sem dúvida alguma, é o melhor dom, porque, por seu intermédio, a Palavra de Deus está sendo anunciada, e o Espírito Santo, usando-a, está atraindo os ouvintes para congregarem-se aos pés de Jesus Cristo, de quem recebem o perdão de seus pecados e o dom da vida eterna. Podemos exercer esse dom com a maior confiança, porque o próprio Senhor garantiu: “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is. 55:11). Pregar, profetizar e anunciar são sinônimos que descrevem a ordem de Cristo: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15). Esse é o melhor dom.
2)      “Se ministério, dediquemo-nos ao ministério”. A palavra é diaconia - serviço, qualquer atividade prática e útil, tal como: “Para servir as mesas”,(At.6:2). Ou, preparar uma refeição. Marta exercia esse dom, (Lc. 10:38-42). O diácono, como oficial da igreja, é um homem chamado e encarregado para fazer qualquer serviço prático dentro da igreja, a fim de manter a boa ordem nos cultos.
3)      “O que ensina, esmere-se no fazê-lo”. O Profeta recebia a sua mensagem diretamente da boca do Senhor, sem qualquer esforço próprio. Jeremias recebeu esta explicação do Senhor: “Eis que ponho na tua boca as minhas palavras” (Jr. 1:9). Mas aquele que ensina, seja pastor ou professor da Escola Dominical, tem que trabalhar  a fim de receber a sua mensagem, mediante o estudo cuidadoso da Bíblia e a pesquisa criteriosa de livros apropriados. Esmerar-se significa esforçar-se por fazer as coisas com perfeição. O Senhor nos deu esta palavra a fim de tirar de nós qualquer indolência no preparo das nossas lições: “Maldito aquele que  fizer a obra do Senhor relaxadamente” (Jr. 48:10). Em nosso ministério, devemos lembrar que estamos ensinando um povo que  está caminhando rumo à eternidade, onde existem apenas dois destinos, ou o céu ou o inferno.
4)      “O que exorta, faça-o com dedicação”. O ensino é direcionado para o nosso entendimento, enquanto que a exortação procura vivificar a consciência e os sentimentos. José, querendo tranqüilizar os seus irmãos inquietos, deu-lhes promessas: “Assim, os consolou e lhes falou ao coração” (Gn. 50:21). Alguns sabem ensinar e comunicar os fatos com clareza, porém, nem sempre sabem como aplicá-los à consciência; por isso a necessidade de exortadores dedicados a seu ministério, pessoas que fazem os fatos chegarem ao coração do povo. “E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm. 15:13).
5)      “O que contribui, com liberalidade”. Alguns têm mais recursos financeiros do que outros; contudo, todos podem dar alguma contribuição à necessidade dos pobres. Mas a ênfase quanto às contribuições recai sobre a atitude do coração. Os cristãos da Macedônia revelaram esta liberalidade. “Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos” (2Co. 8:3-4). Mas, por outro lado, temos o caso de Ananias e Safira. Sim, eles deram, mas não com liberalidade espontânea, porque reservaram parte do valor prometido para si mesmos. E, para tentarem se justificar, mentiram ao Espírito Santo, (At. 5:1-5). Qual deve ser a nossa atitude quanto à graça de contribuir? “De graça recebestes, de graça dai” (Mt. 10:18). Veja como Cristo ilustrou o sentido de liberalidade: “Dai, e dar-se-vos-á; boa medida, sacudida, transbordante, generosamente vos darão” (Lc. 6:38).
6)      “O que preside, com diligência”. “O que preside” se refere especificamente aos oficiais da Igreja, ao pastor e aos presbíteros. Eles têm que exercer o seu ministério com diligência, imparcialidade e honestidade. O Ap. Pedro deu esta interpretação: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe. 5:1-3). Os que presidem dessa maneira merecem nosso respeito. E honrai sempre homens que presidem com diligência (Fp. 2:29).
7)      “Quem exerce misericórdia, com alegria”. Todos os cristãos, como um ato de amor, devem exercer a misericórdia aos que precisam, contudo, é o diácono que tem esse ministério. Ele dedica-se “ao cuidado dos pobres, doentes e inválidos, com ações de conforto, como orienta a Constituição da nossa Igreja. Esse ato de amor tem valor especial quando exercido com alegria e boa vontade. “Tudo quanto fizerdes, faze-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens,  cientes de que recebeis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo” (Cl. 3:23-24). Nesse contexto, Provérbios 15:30 tem uma palavra oportuna: “O olhar de amigo alegra o coração; as boas-novas fortalecem até os ossos”.

Notemos que cada um desses sete dons tem uma palavra que ensina como eles devem ser praticados. “Quem exerce misericórdia, com alegria”, etc. Em cada parte do nosso culto, Deus pede a totalidade do nosso ser, sem qualquer reserva.  “Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor requer de ti? Não é que temas ao Senhor, teu Deus, e andes em todos os seus caminhos, e o ames e sirvas ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardardes os mandamentos do Senhor e os seus  estatutos que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt. 10:12-13). E, para podermos agir dessa maneira, temos que cultivar uma vida santa e irrepreensível; lembrando sempre que consagração a Deus necessita de uma comunhão, uma intimidade com Deus, e o resultado não pode ser outro senão uma verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.

Conclusão: Começamos esta mensagem mencionando a tríplice unidade, são três realidades inseparáveis na vida cristã. Consagração a Deus necessita que tenhamos comunhão espiritual com Ele; e essa intimidade sempre se manifesta através de uma vida santa e irrepreensível, uma santidade que pode ser reconhecida por todos. Santidade está unida inseparavelmente à pratica  do amor. “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte” – separado de Deus (1Jo. 3:14). A prática do amor fraternal significa que respeitamos os dons que o irmão tem. Talvez eu não possa profetizar como convém, porém, reconheço que o meu irmão tem esse dom, por isso, fico grato a Deus, porque a Palavra de Deus está sendo proclamada e o seu Nome está sendo conhecido e glorificado. Mas, por lado, reconheço que Deus tem me dado um dom de acordo com a minha capacidade. Talvez não se sobressaia tanto quanto a profecia, contudo, é o dom que posso usar livremente e também glorificar a Deus.


Nos dias do Ap. Paulo, existia uma certa rivalidade quanto ao uso dos dons. Mas, qual foi a  atitude desse nobre servo de Deus? Ele escreveu: “Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por  inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam Cristo por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (Fp. 1:15-18). Irmãos, vamos sempre lembrar: “O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm. 13:10). Que cada um de nós possamos usar o nosso próprio dom, sem qualquer inveja, com a devida diligência, como para o Senhor, sempre respeitando os dons que os demais membros da Igreja receberam do Senhor. “A Cristo, o Senhor, é que estais servindo” (Cl. 3:24).



Rev. Ivan G. G. Ross

terça-feira, 6 de setembro de 2016

CONSAGRAÇÃO A DEUS




Leitura Bíblica: Romanos  12:1-2.

Introdução: No início da Carta aos Romanos, o Apóstolo confessou: “Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes; por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma” (Rm. 1:14-15). Em outro lugar, ele explicou esse sentimento: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar; pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho” (1Co. 9:16). O evangelho é o tema principal dessa Carta, uma mensagem que fala das misericórdias que Deus tem derramado tão liberalmente sobre o seu povo. Nos capítulos 1 a 11, podemos achar algumas dessas dádivas, por exemplo: bondade, um atributo que desperta em nós anseios espirituais, tais como “arrependimento”, 2:4. Paciência, Ele “suportou com muita longanimidade” os pecadores, 9:22. Amor, “o amor de Deus foi derramando em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”, 5:5. Graça, o dom gratuito de Deus. “ No tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça”, 11:5. Justificação, “Justificados, pois (declarados inocentes porque fomos encontrados vestidos das virtudes do Filho de Deus), temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo”, 5:1.

Agora, tendo ouvido sobre algumas das misericórdias, estamos prontos para entender como o Apóstolo aplica essas dádivas à nossa vida, visando uma consagração total da nossa vida a Deus, como uma manifestação  da nossa gratidão a Ele. 

1. A Instigação (incentivo) que Promove a Consagração. O Apóstolo dá início a esta parte, fazendo um apelo forte: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus”. O fato de termos recebido da mão de Deus tantas manifestações da sua misericórdia, sentimos que somos os seus devedores. O Salmista experimentou esse mesmo sentimento, e exclamou: “Que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?” Jamais conseguiremos pagar a Deus tudo o que Ele nos dá, contudo, podemos oferecer-lhe o nosso culto em atos públicos e particulares. Por isso, o Salmista prometeu: “Cumprirei os meus votos ao Senhor na presença de todo o seu povo” (Sl. 116:12-14). A única retribuição que Deus aceita de nós, é o nosso culto racional, um ato planejado e realizado “em espírito e em verdade” (Jo. 4:23-24). Quando os tessalonicenses se converteram, eles abandonaram o seu antigo modo de agir, a fim de servirem o Deus vivo e verdadeiro, (1Ts. 1:9). A conversão e o recebimento do perdão de todos os nossos pecados deve nos conduzir à consagração e a uma vida de obediência. É como Cristo disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo. 14:15). E Ele acrescentou: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei; que também vos ameis uns aos outros” (Jo. 13:34).

E, para nos instigar ainda mais para consagrar a nossa vida a Deus, o Apóstolo nos mostra como Deus o Pai tem nos “abençoado com toda sorte de benção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”. Quais são essas bênçãos que conduzem a nossa vida a uma consagração total? Eleição: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante o nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós”. ( 1Ts. 5:9-10). Adoção: Fomos resgatados da lei, que nos condenou à morte, “a fim de que recebêssemos a  adoção de filhos” (Gl.4:5). Redenção: Fomos tirados do império das trevas e transportados para o reino de Cristo, (Cl. 1:13). Remissão:  O perdão de todos os nossos pecados. “Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” (Sl. 103:12). Salvação:  “Entretanto,  devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação” – a vida eterna na  presença consoladora de Deus, (2Ts. 2:13). O Selo do Espírito Santo:  Ele é “o penhor (a garantia) da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em  louvor da sua glória” (Ef. 1:14). “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. (Rm. 8:16). Por essas e tantas outras bênçãos que Deus  tem nos dado gratuitamente, o Apóstolo fez este apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que vos apresenteis o vosso corpo” a Deus em total consagração.

2. A Instauração (começo) que Promove a Consagração. O Apóstolo estava consciente da sua vida anterior, mas,  apesar de tanta insolência, ele podia confessar: “Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade” (1Tm. 1:13). Agora, ele exorta os seus leitores: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus (aquela misericórdia por ter sido perdoado), que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”.  Quando alguém nasce de novo, quando está sentindo a alegria de entender que todos os seus pecados foram graciosamente perdoados, nasce no coração dele a necessidade de oferecer a totalidade da sua vida ao seu Salvador, dizendo: “Eis aqui estou  para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb. 10:9). Consagração, portanto, é um ato espontâneo e a primeira manifestação do amor e gratidão que sentimos em favor de Deus. “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e  andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou  a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef. 5:1-2).

 Consagração é possível somente depois de um verdadeiro encontro salvador com Jesus Cristo. Existem  membros  em nossas Igrejas que nunca foram convencidos de seus pecados e nem da necessidade de serem nascidos de novo, porque, como dizem: sempre fomos cristãos. Essas pessoas não gostam de serem exortadas a uma vida consagrada a Deus. Estão plenamente satisfeitas com sua vida descomprometida, e não querem nada diferente. O jovem se desculpa, dizendo: Vou pensar sobre esse assunto mais tarde; preciso aproveitar a minha mocidade! Mas o tempo passa e ele continua adiando uma decisão. Com certeza, o seu  fim será semelhante ao das cinco virgens néscias, que resolveram agir quando a porta já estava fechada, (Mt. 25:1-13). Ou, o homem mais maduro, que promete: quando eu me aposentar da minha profissão secular, consagrarei a minha vida ao serviço de Deus. Mas, com esta idade, o corpo está cansado e a saúde debilitada; além disso, seus costumes já estão profundamente estabelecidos e não aceitarão a mudança que a consagração exige. Deus pede de nós um corpo vivo, cheio de disposição e pronto para qualquer serviço. Esse é o nosso culto racional e agradável a Deus. Não podemos procrastinar, aguardando um tempo mais oportuno. Na vida da Igreja sempre existem oportunidades para servir a Deus. Podemos pensar no presbiterato e no diaconato, professores para a Escola Dominical, sem esquecer das atividades que as sociedades internas oferecem. Mas alguém reclama: Eu não tenho dom para nada dessas coisas! Contudo, serviço a Deus não depende exatamente das nossas próprias capacidades. A nossa suficiência vem de Deus. Cristo nos deu esta promessa: “Mas recebereis poder, e sereis as minhas testemunhas” (At. 1:8). A nossa parte é apresentar o nosso corpo e todas as suas capacidades a Deus, e Ele nos dará a devida oportunidade. Importa que tenhamos vidas consagradas a Deus e uma disposição para servir.

3. A Instância (súplica) que Promove a Consagração. E, para que a nossa consagração seja autêntica, somos exortados: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. De modo geral, a “mente”  deste século  é o anseio de satisfazer todos os desejos do próprio egoísmo, a qualquer custo, mesmo que sejam uma transgressão da lei de Deus. Essa mentalidade mundana é perigosamente contagiante, por isso, a advertência: “E não vos conformeis com este século”. Temos que ser firmes, resistindo às ciladas sutis deste mundo.

Consagração envolve a respeitosa obediência aos Dez Mandamentos. O mundo ensina, e o nosso próprio coração também, que estes não são relevantes para o homem moderno, oferecendo uma infinidade de oportunidades que procuram  subverter a seriedade da lei de Deus. Esse desprezo do Mandamento é  visto especificamente na transgressão do Quarto Mandamento. O mundo ensina, e o nosso próprio coração também, que o Domingo não é do Senhor, como a Bíblia ensina, antes, é do  homem, e deve ser usado para satisfazer os seus próprios interesses: viagens, esportes, divertimentos, ociosidade, etc. Eis aqui como o Dia deve ser observado, juntamente com uma promessa encorajadora: “Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; e chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs (palavras não edificantes), então, te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra (fora do alcance de perigo - Dt. 33:16) e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse” (Is. 58:13-14). Sim, Deus abençoou e santificou o Seu Dia; e no guardá-lo, há uma promessa de sustento diferenciado.

Mas, como podemos guardar os Mandamentos, e, especificamente, o Quarto? Temos que nos submeter à transformação pela renovação da nossa mente. A mente humana é o centro do nosso raciocínio, dela procedem todas as nossas determinações, seja qual for a natureza delas. O Salmista confessou: “Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Sl. 119:11). E, para colocar essas palavras no coração, temos que ler a Bíblia atenciosamente todos os dias, memorizando as palavras chaves para que elas habitem em nosso coração. Dessa maneira, estaremos crescendo na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, estaremos experimentando uma transformação em nossa mente que nos conduzirá a uma verdadeira consagração pessoal a Deus. “E todos nós, com rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em  glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co. 3:18). Consagração, ou seja, dedicação  à prática da vontade de Deus, deve ser o  grande anseio de cada cristão.

4. A Instrução (convite) que Promove a Consagração. Qual é o propósito dessa transformação pela renovação da nossa mente? Eis a resposta: “Para que experimenteis qual seja  a boa, agradável e  perfeita vontade de Deus”.  É possível dar a essas três  palavras descritíveis este sentido: Tudo o que é bom, tudo que é agradável, e tudo o que é perfeito, encontra-se somente no conhecimento e na prática da vontade revelada de Deus. O mundo se esforça para oferecer substitutos para despertar a imaginação vaidosa do homem, porém, eles sempre decepcionam. O pregador experimentou esses atrativos fictícios, porém, teve que concluir: “Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento” (Ec. 2:17).  Deus coloca diante de nós  muitas opções: vida e morte, benção e maldição, para depois nos desafiar: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas” (Dt. 30:19). Mas o pecador, em sua cegueira espiritual, não quer reconhecer a diferença ente a vida e a morte, entre a benção e a maldição. Seu único interesse é satisfazer os seus desejos do momento, porque ama “mais as trevas do que a luz” (Jo. 3:19). A nossa oração deve ser: “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano” (Sl. 143:10). Essa oração é necessária “para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus” (Cl. 4:12).

A vontade de Deus deve ser o objetivo principal na vida do cristão, porque ela é boa, agradável e perfeita, e digna de ser praticada. Ela é a lei de Deus para a santificação do homem, pois “ é santa, justa e boa” (Rm. 7:12). Devemos confiar na sabedoria de Deus, pois Ele sabe o que o homem mais precisa. Veja como o Salmista interpretava essa norma: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento de Senhor é puro e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros, e todos igualmente justos”. E qual foi o efeito desse juízo sobre a sua mente renovada? Ele confessou: “são mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar há grande recompensa” (Sl. 19:7-11). Por que estamos falando dessa maneira? Para que a  prática da vontade de Deus seja o anseio ardente do nosso coração.
     

 Conclusão: Nós, que temos sido abençoados “com toda sorte de benção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef. 1:3), devemos nos sentir constrangidos  a retribuir a Deus, dando-lhe a nossa vida em total consagração a seus interesses. “Ou desprezas a riqueza da bondade, e da tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz” à transformação do seu modo de agir e uma atitude mais decisiva que engrandece o nome de seu Deus. Essa consagração é o nosso “culto racional”, uma devoção  que dá honra a Deus. Mas, para a que a nossa consagração seja verdadeira, o texto instrui: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” por meio da leitura diária das Escrituras Sagradas. E, com a nossa mente agora renovada, estamos dispostos para ouvir e entender os conselhos do Senhor e experimentar que, de fato, a vontade de Deus para a nossa vida é boa, agradável e perfeita, própria para a nossa total felicidade. Consagração a Deus sempre precede qualquer serviço que possamos oferecer a Ele. “Ora, o Deus da paz que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe  em todo  o bem, para cumprirdes  a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém” (Hb. 13:20-21).      

A VIDA TEOLÓGICA DO PASTOR




Rev. Ivan G. G. Ross

Leitura Bíblica: 1Timóteo 4:6-16;

Introdução:  Em 1921, Casper Wisper Hodge escreveu: “Se olharmos dentro do nosso próprio coração, podemos descobrir que a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida estão, sorrateiramente, se esforçando para reassumir o seu antigo domínio sobre a nossa vida”. E, nesse contexto, o Apóstolo nos admoesta: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (V.16).

Nesse versículo, duas verdades estão implícitas: primeira, a salvação dos nossos ouvintes, bem como a nossa própria, depende da veracidade da doutrina recebida; e, a segunda, os nossos ouvintes, bem como nós mesmos, perdemos a alegria da salvação quando uma doutrina deficiente é ensinada e adotada. Tito foi exortado a ficar “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino, como para convencer os que o contradizem” (Tt. 1:9). 

Diante desses dois perigos, o Apóstolo faz um apelo urgente: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. Por causa da tendência pecaminosa  que ainda resta em cada um de nós, temos, por exemplo: o pecado da leviandade, permitindo que as verdades divinas sejam tratadas sem a devida seriedade; o pecado da indolência, quando o estudo da Palavra não recebe a devida prioridade; o pecado do pragmatismo, quando os resultados são mais importantes do que os meios utilizados. Uma Igreja cheia de pessoas que não têm uma noção salvífica  do plano da salvação não redunde para a glória de Deus. Precisamos  praticar um cuidado consciente com  aquilo que estamos comunicando à Igreja, para  que seja de acordo com a sã doutrina. Por causa de negligências no preparo das mensagens, é  possível  prejudicar aquele a favor de quem  Cristo morreu (Rm. 14:15). Assim, percebemos que a salvação dos nossos ouvintes também depende do nosso preparo teológico. Seguindo o ensino do texto lido, escolhemos três disposições indispensáveis para a formação da nossa vida teológica.

1. A Importância da Piedade, Vs. 6-8. O nosso objetivo, como pastores, é este: “Ser um bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as  palavras da fé e da boa doutrina”. Eis a exortação: “Exercita-te pessoalmente na piedade (...) a piedade para tudo é proveitosa”. Piedade  significa esforçar-se para ser irrepreensível não somente diante de Deus, mas também do nosso  próximo. Cornélio, em Atos 10, exercia a sua  piedade desta forma: era temente a Deus e orava continuamente; ensinava a sua família a  temer a Deus; cuidava do seu próximo fazendo muitas esmolas ao povo; e cuidava da sua própria vida espiritual, pronto e desejoso de ouvir a Palavra de Deus. Jó é outro exemplo dessa piedade, homem íntegro, reto e que se desviava do mal (Jó. 1:1). E o nosso texto nos oferece estas características de uma vida piedosa: “Torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza”. O Apóstolo Paulo desafiava os seus leitores, dizendo: “Sede os meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co. 11:1).

Piedade não é algo que surge sem a prática de hábitos regulares. Temos que nos aplicar à leitura e ao estudo das Escrituras Sagradas, todos os dias, como um ato de culto a Deus. A ordem é: “Exercita-te, pessoalmente, na piedade”. O Apóstolo Pedro nos encoraja: “Empenhai-vos por serem achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” (2Pe. 3:14). Temos que aprender a praticar a abnegação: “Desembaraçando-vos de todo peso (coisas desnecessárias que impedem o nosso livre desempenho na prática da vontade de Deus) e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta” (Hb. 12:1). Temos que ser cuidadosos com as nossas amizades e com o que ouvimos e falamos, lembrando-nos da advertência: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes” (1Co. 15:33). Até certo ponto, ninguém fica ileso da influência negativa  da convivência moderna, pois ela pode opacificar o nosso testemunho cristão. Repetimos a urgência do apelo do Apóstolo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. Tem cuidado para praticar uma vida piedosa. E qual o proveito de exercitar-nos na prática dessa piedade? Ela “tem a promessa da vida que agora é e da que há de vir”. A promessa de comunhão espiritual com Deus; o amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito Santo; e a paz de Deus que excede todo o entendimento, não apenas para o presente, mas, sim, para toda a eternidade.  

2. A Importância de Singularidade, Vs. 9-12. Singularidade no exercício do ministério, uma ação que não pode ser compartilhada com as filosofias modernas. “Ordena e ensina  estas coisas”, coisas bíblicas. Observem os dois verbos: ordenar e ensinar. Ordenar significa impor com autoridade, uma  autoridade que provém da clara exposição das Escrituras Sagradas. Ordenar é impedir a circulação  de “fábulas profanas”; proibir a entrada de “espíritos enganadores e o ensino de demônios”. Parece que o Apóstolo estava prevendo os tempos modernos! A Igreja não pode ser permitida a cultivar a mentalidade dos atenienses. “Pois todos os de Atenas, e os estrangeiros residentes, de outra coisa não cuidavam senão dizer ou ouvir as últimas novidades” (At. 17:21). Ensinar é colocar o material em ordem sistemática para que as propostas sejam devidamente assimiladas e praticadas pelos ouvintes. Esse modo de ensinar é de suma importância  para que a Igreja tenha “as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” e o que fere os ensinos bíblicos, (Hb. 5:14).  Ensinar para que Igreja possa discernir a diferença entre  os conceitos populares e as verdades bíblicas que comunicam a vida eterna. E, para isso, é necessário alimentar a Igreja “com as palavras da fé e a boa doutrina”. Temos que confiar no poder efetível  da Escritura Sagrada. Por meio dela, Deus realiza todos os seus propósitos entre os homens.

É importante  tomar conhecimento  das cinco “palavras fiéis” que se encontram nas “Cartas Pastorais”: (1Tm. 1:15; 3:1; 4:8-9; 2Tm 2:11-13; Tt 3:4-8). Elas são súmulas de verdades e princípios bíblicos. Veja V.9 da nossa leitura: “Fiel é a palavra e digna de inteira aceitação”. Qual é essa palavra fiel? Aquela do V.8, que fala sobre a particularidade de uma vida piedosa. “Pois o exercício  físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser”. O servo de Deus não pode ser contador de lorotas jocosas quando deve estar explicando as Escrituras Sagradas. Ele tem que ser totalmente singular em suas atitudes diante de Deus. Às vezes os pastores são criticados por causa de seu modo irreverente para apresentar a sua mensagem. Ele não é um animador de emoções, antes, tem que ser inteiramente singular em suas atitudes espirituais, um “obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem  a palavra da verdade” (2Tm. 2:15). Sem essa singularidade na prática da piedade, o pastor perde a sua autoridade no ensino da palavra, e, pior ainda, o nome de Deus é blasfemado em pleno culto público, por causa dessa insensibilidade espiritual. O salmista cultivava a atitude correta: “arrepia-me a carne com temor de ti, e temo os teus juízos” (Sl. 119:120).

3. A Importância da Biblicidade, Vs. 13-16.  No V.13, temos os três elementos indispensáveis no culto público: Reconhecemos que existem  outros, mas, aqui, o Apóstolo está ressaltando estes três. “Aplica-te à leitura”. Não esquece o lugar das Escrituras Sagradas no Culto a Deus.  Qual a razão dessa ênfase? Reconhecemos que o único contato que muitas pessoas das nossas Igrejas têm com a Palavra de Deus, é o que ouvem nos cultos dominicais, visto que poucas lêem a Bíblia diariamente em culto doméstico. Portanto, nessas leituras públicas, os ouvintes devem se sentir exortados pelo que Deus está  dizendo  sobre as suas vidas morais e espirituais. Além disso, o povo tem que receber o ensino que conduz ao conhecimento da natureza de Deus  e ao que Ele requer de cada um de nós. Devemos  lembrar que o fim principal do culto público é que Deus seja glorificado e que a Igreja seja encaminhada, encorajada e fortalecida para viver uma vida santa e irrepreensível, uma vida que revela a realidade de Cristo em nós. Um exemplo prático desse culto se encontra em Neemias 8:5-8: “Ezdras abriu o Livro à vista de todo o povo (...). Leram no Livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia”. Creio que essas explicações foram interpoladas durante a leitura. E quando palavras técnicas, tais como justiça, redenção, perdão e santificação foram encontradas, um breve esclarecimento de cada uma foi dado.

No V.14, o pastor é incentivado a reavivar o dom que Deus lhe deu para pastorear o seu rebanho. O uso da frase, “não te faças negligente”, significa uma consagração diária, dizendo: “Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb. 10:9). Essa consagração se torna ainda mais necessária, pois o dom foi reconhecido publicamente “com a imposição das mãos do presbitério”.

No V.15, temos que ser diligentes quanto ao cuidado da nossa vida espiritual, para que o nosso crescimento “a todos seja manifesto”. Temos que “crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe. 3:18). Por que a ênfase sobre esse desenvolvimento espiritual? Eis uma resposta que o Apóstolo nos deu: “Para que tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1Co. 9:27). O Pastor tem que tornar-se “padrão dos fiéis” em termos de diligência, cuidando para que a sua diligencia espiritual  seja observada por todos.

No V.16, temos mais uma exortação e, com esta, uma promessa encorajadora foi anexada. Quando atendemos ao conteúdo desse conselho, a promessa será cumprida. É evidente que o pastor que não sabe como cuidar da sua própria vida espiritual não estará apto para pastorear a vida de outros. Nesse contexto, temos a admoestação: “tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. Cuidar de nós mesmos significa que temos que selecionar os livros (ou o que se encontra na Internet), que devem alimentar, positivamente, a nossa vida espiritual. O Apóstolo nos faz lembrar: “um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gl. 5:9). Ou a advertência: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes” (1Co. 15:33). Por causa do pecado que ainda resta em nós, podemos ser influenciados pelo alimento que não produz o temor de Deus e nem uma vida santa e irrepreensível. E, quando o pastor está sendo influenciado negativamente, ele oferecerá o mesmo alimento à sua Igreja para a debilitação daqueles “a favor de quem Cristo morreu” (Rm. 14:15) Mas, por outro lado, se ele cuidar da sua própria vida espiritual com livros (ou o que se encontra na Internet), cuidadosamente escolhidos, terá a experiência da promessa: “Salvará tanto a si mesmo como aos seus ouvintes”.

“Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! – diz o Senhor” (Jr. 23:1). Portanto, temos que cultivar “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”, que disse: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Fp. 2:5; Jo. 10:11). Então, qual é o nosso dever, dia após dia? “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm. 2:15).

Conclusão: Terminamos confessando que o pastor tem o ofício mais sublime que um homem mortal pode exercer: ministrar em Nome do Senhor. Porém, isso envolve uma responsabilidade quase insuportável, fazendo o Apóstolo exclamar: “Quem, porém, é suficiente para estas coisas?” (2Co. 2:16). Por que este ministério compreende tamanha responsabilidade? Porque estamos direcionando vidas, vidas imortais que podem passar a eternidade, ou no céu ou no inferno. Mas a sublimidade do ministério do pastor é que ele é encarregado de pregar o evangelho, a mensagem que conduz pecadores a arrependerem-se e a entregarem-se a Jesus Cristo, de quem recebem o perdão de todos os seus pecados, juntamente com a promessa de vida eterna.

Por isso, o nosso ministério tem que ser caracterizado por uma piedade pessoal, servindo de modelo, tendo uma vida moral e espiritual irrepreensível diante de Deus. Temos que praticar uma singularidade em nosso ministério, sem qualquer mistura com conceitos populares, pois o nosso objetivo é ordenar e ensinar o Nome santo do nosso Deus. Temos que praticar uma biblicidade que edifica não apenas a nossa própria vida, mas também a vida do povo de Deus que depende da nossa fidelidade às Escrituras Sagradas. O Ap. Paulo nos deixa com a palavra final: “Expondo estas coisas aos irmãos serás bom ministro de Jesus Cristo”. Amém   



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O JUSTO JUIZO DE DEUS


Rev. Ivan G. G. Ross

Leitura Bíblica: Romanos 2:5-11.

Introdução: Na Carta aos Romanos, o Ap. Paulo faz repetidas referências aos judeus e aos gregos, ou seja, ao povo que tinha a lei de Deus em forma escrita nas Escrituras Sagradas e ao povo que não tinha  esse mesmo privilégio. No primeiro capítulo, vemos a pecaminosidade dos gregos; no segundo capítulo, a pecaminosidade dos judeus. E, mediante essa exposição, o Apóstolo demonstrou “ que todos, tanto judeus como gregos estão debaixo do pecado” (Rm. 3:9).

Vamos examinar a situação dos gregos (gentios), esse povo que não tinha a lei de Deus escrita, contudo, apesar dessa falta, procedia “por natureza de conformidade com a lei”, porque “tem a norma da lei gravada no seu coração” (Rm. 2:14-15). Por causa desse fato, o Apóstolo descreveu a realidade dos gentios, dizendo: “Portanto, tendo conhecimento de Deus,  não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” (Rm 1:21). “Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Rm. 1:20).

Agora, vamos ver a situação dos judeus, esse povo que tinha a lei escrita, não apenas sobre papel, mas, também, “gravada no seu coração”, porque esse conhecimento inato é parte da imagem de Deus que distingue o homem de todos os demais seres vivos. Mas, por causa da sua natureza pecaminosa, o homem tem uma facilidade para abusar dos privilégios mais sagrados. O judeu tornou-se cheio de uma justiça própria, pensando que, como conhecedor da lei escrita, podia condenar os pecados dos gentios como se fosse o próprio Deus. Nesse contexto, o Apóstolo repreendeu: “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; pois praticas as próprias cousas que condenas. (...) Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais  cousas e fazes as mesmas, pensas que ti livrarás do juízo de Deus?” (Rm. 2:1,3). Privilégios espirituais são concedidos por Deus para nos instruir e nos conduzir ao arrependimento; porém, de acordo com o texto, esse resultado não aconteceu (Rm. 2:4). Por isso, Deus tem que reagir e julgar o transgressor, seja quem for o culpado. Estamos, agora, prontos para meditar sobre os três pontos que o texto lido destaca: A Natureza de Deus, A Natureza do Pecador e A Natureza do Cristão.  

1. A Natureza de Deus. Podemos enumerar pelo menos três atributos que caracterizam o procedimento de Deus quanto às suas lidas com o homem. “Deus reina sobre as nações; Deus se assenta no seu santo trono” (Sl. 47:8). Nesse contexto, vemos como Ele usa os atributos destacados no texto lido.

a)      A ira de Deus. Ao meditarmos sobre essa propriedade divina, temos que desassociar o termo bíblico da ira e das emoções do homem. A frase, “ira de Deus”, é o inverso da “justiça de Deus”. Essa justiça é sempre retribuidora, cada um tem que pagar conforme as sua obras. Deus tem uma santa indignação contra o pecado e tem que reagir, porque é uma agressão contra a sua Pessoa, uma zombaria da sua santidade. Essa ira é revelada, isto é, pode ser reconhecida em dadas circunstâncias. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detém (interrompem) a verdade pela injustiça” (Rm. 1:18). Notemos que essa ira não é uma mera conseqüência do pecado; antes, é algo específico que “se revela dos céus”. Por exemplo: os desastres que aconteceram, tais como o dilúvio, (Gn 6:12-13); a destruição de Sodoma e Gomorra, (Gn. 19:24); divisões dentro de reinos etc. (2Cr 10:15). Os conflitos entre os homens podem ser uma revelação dessa ira, “recebendo eles injustiça por salário da injustiça que praticam” (2Pe. 2:13). Mas, infelizmente, muitos crimes são praticados neste mundo sem receber qualquer punição. Parece que Deus não toma conhecimento do que os homens estão praticando. Por isso, alguns dizem, atrevidamente,  “que a sua iniqüidade não há de ser descoberta, nem detestada” (Sl. 36:2). Mas não é bem assim. Deus  tem reservado para si um Dia quando a sua ira se manifestará universalmente contra todas as  formas de pecado. Como a Bíblia ensina: “Porquanto estabeleceu um Dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio  de um varão (Jesus Cristo) que destinou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (At. 17:31). Este Dia, já determinado, será parte dos acontecimentos que acompanharão a segunda Vinda de Jesus Cristo na consumação do século. Esse será “o Dia da sua ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento” (Rm. 2:5-6).
b)      O juízo retribuidor,  V. 6-8. Abraão fez esta pergunta ao Senhor: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn. 18:25). O Ap. Paulo, às vésperas da sua morte, falou da sua confiança nesse atributo divino: “ Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto Juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm. 4:8). O Salmista fez este apelo à justiça de Deus: “Exalta-te, ó Juiz da terra; dá o pago  aos soberbos. Até quando, Senhor, os perversos, até quando exultarão os perversos?” (Sl. 94:2-3). Mas não fiquemos desanimados, no Dia do juízo, cada um receberá segundo o seu procedimento: a vida eterna aos justos, e ira e indignação aos injustos. Naquele dia, todos verão o justo juízo de Deus. Ele faz “separação entre o santo e o profano” (Ez. 42:20). É bom lembrar que essa retribuição não se limita ao futuro desconhecido. Mesmo nesta vida, tanto o justo, bem como o injusto, podem sentir o início dessa remuneração. “A desventura persegue os pecadores, mas os justos serão galardoados com o bem” (Pv. 13:21). E Cristo, comentando sobre esse assunto, disse: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna” (Lc. 18:29-30).
c)      A imparcialidade,  V.11. No Dia da retribuição, todos verão a imparcialidade de Deus. “Porque para com Deus não há acepção de pessoas”. Ele não favorece um a fim de prejudicar o outro. Todos receberão, com uma igualdade perfeita, exatamente de acordo com o procedimento praticado na vida. O critério do juízo não é baseado em privilégios espirituais ou em posições eclesiásticas, antes, é sempre de acordo com o procedimento, moral e espiritual. O fato que os judeus receberam muitos privilégios espirituais não os isentou da  necessidade de viver uma vida santa e irrepreensível e de prestar contas a Deus. E, de forma semelhante, os gentios, que não receberam esses privilégios espirituais, não ficam isentos de suas responsabilidades morais e espirituais por causa da sua ignorância das Escrituras Sagradas, pois todos, judeus e gentios, têm a lei de Deus gravada sobre o seu coração, e esta foi dada para ser obedecida. Por isso Deus pode agir com imparcialidade, retribuindo a cada um segundo o seu procedimento.     

2. A Natureza do Pecador, Vs. 8-9. Para facilitar a compreensão desses versículos, dizemos que eles se  referem ao pecador que não tem nenhuma experiência salvífica e que está vivendo desregradamente  de acordo com os seus próprios impulsos carnais. O Apóstolo destaca apenas três das transgressões que caracterizam o seu procedimento.

a)      Ele é “faccioso”, vivendo em flagrante oposição à vontade de Deus. O Apóstolo ofereceu um  exemplo dessa atitude: “E, do modo por que Janes e Zambres resistiram a Moisés, também estes resistem a verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé” (2Tm. 3:8). São pessoas que dizem, consciente ou inconscientemente: “Não queremos que este (Jesus Cristo) reine sobre nós” (Lc. 19:14).
b)      Esses facciosos “desobedecem à verdade”. São conhecedores da verdade, porém, ela é deliberadamente rejeitada e desprezada. “Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm. 3:18). É possível ser visivelmente religioso, porém, ao mesmo tempo, ser inimigo da verdade bíblica, como eram os homens do Sinédrio. Estevão foi acusado falsamente por homens religiosos, “alguns dos que eram da sinagoga” (At. 6:9). E, quando estava sendo julgado por blasfêmia, ele acusou os seus juízes religiosos, dizendo: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram os vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós, agora, vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes” (At. 7:51-53). Mas existe ainda outra maneira pela qual religiosos desobedecem à verdade. Como? Pela negligência da leitura diária das Escrituras Sagradas. É impossível obedecer ao desconhecido, e, por conseqüência, estão desobedecendo à lei pela ignorância da mesma. O profeta lamentou: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Os. 4:6).
c)      Esses facciosos “obedecem à injustiça”. O homem, em seu estado natural, é distinguido por seus atos de injustiça. “Deleitam-se com a injustiça” (2Ts 2:12). O poder do pecado é um tirano cruel, impelindo o seu escravo cego para praticar todo tipo de injustiça. E, se não fosse a  graça e a misericórdia de Deus, nós, os salvos e santificados, estaríamos sob o mesmo domínio negativo, praticando a injustiça.

Qual é o salário que esses transgressores recebem? A Bíblia responde: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl. 6:7). E o nosso texto descreve o que os homens desobedientes recebem: “tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, o judeu primeiro (que tem as Escrituras como única  regra de prática, mas não as obedece) e também ao  grego (que tem a lei de Deus gravada sobre o seu coração, mas não a obedece)”. Tribulação se refere ao sofrimento externo, enquanto que angústia se refere ao sofrimento interno, o do coração. Esse sofrimento, o salário da desobediência, começa lentamente nesta vida (com o avanço da idade) e aumenta, inexaurivelmente, chegando à sua plenitude no “inferno para o fogo inextinguível, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga” (Mt. 9:43-44). O homem rico, tendo praticado a injustiça contra Lázaro, estava  “no inferno, estando em tormentos”, e desejava que  alguém molhasse em água a ponta do dedo, para  que a sua língua pudesse sentir um momento de alento, o que lhe era impossível experimentar, porque “está imposto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós” (Lc. 16:19-31). Graças a Deus, a Bíblia nos oferece uma palavra de esperança: “Se confessarmos os nossos pecados (e os abandonarmos) ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo. 1:9).

3. A Natureza do Cristão, Vs. 7 e 10. Devemos  lembrar que estes versículos se referem aos cristãos, aqueles que são regenerados e renovados pelo poder do Espírito Santo, (Tt. 2:5). São “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus, de antemão, preparou para que andássemos nelas” (Ef. 2:10). O cristão verdadeiro demonstra o seu amor para com Cristo cuidando das necessidades de seu próximo, mediante a prática dessas boas obras.

a)      Ele persevera na prática do bem. Esse bem se refere, mais especificamente, às nossas atitudes diante das necessidades do nosso próximo. Cristo nos deu um exemplo de como praticar esse bem: “tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes, estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me” (Mt. 25:35-36). E, para nos encorajar na prática desse bem, Cristo disse: “Porquanto, aquele que vos der de beber um copo de água, em meu nome, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que, de modo algum, perderá o seu galardão” (Mc. 9:41).
b)      Ele procura glória, honra e incorruptibilidade.Ele sabe que esta vida é passageira, por isso, sem negligenciar a necessidade de amar o seu próximo, de maneira prática, ele dá uma nova prioridade aos deveres espirituais, cuidando da sua própria comunhão com Deus. O exemplo de Moisés ilustra bem essa prioridade. Por que ele recusou ser chamado filho da filha de Faraó? Porque ele “considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão” (Hb. 11:24-26). As três palavras: glória, honra e incorruptibilidade, estabelecem um contraste entre a nossa vida atual e aquela do porvir. Nunca mais seremos humilhados por causa do nosso amor a Cristo, antes, contemplaremos a sua face para todo o sempre, porque, no céu, jamais veremos a morte (Ap.  22:3-4).

Qual é a recompensa que o cristão recebe por causa de seus esforços espirituais? Mesmo nesta vida, o perseverante pode experimentar glória, honra e paz. Glória, porque somos os filhos que o  próprio Deus adotou. “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e de fato somos filhos de Deus” (1Jo.3:1). Honra, o privilégio de ter acesso à presença de Deus. “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Rm. 5:1-2). Paz: paz com Deus é paz no coração: “Todos os teus filhos serão ensinados do Senhor; e será grande a paz de teus filhos” (Is. 54:13). Embora tenhamos as primícias dessa recompensa no tempo atual, a plenitude dela é reservada para o porvir. O Ap. Paulo tinha esta certeza: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm. 8:18).

Conclusão: Todos nós gostamos de ouvir sobre o amor de Deus, e deve ser assim, porém, esse não é o seu único atributo. Ele tem outros de igual importância, tais como a sua santidade, a sua justiça, a sua ira contra o pecado, e a sua imparcialidade em todas as suas lidas com as pessoas de todas as nações. Essas propriedades devem receber o mesmo interesse e prazer. “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra, porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr. 9:23-24).

Devemos também reconhecer que existe algo que distingue um homem do outro; um procura obedecer a Deus, enquanto que o outro vive em flagrante desobediência. E Deus, como Juiz justo, agindo com uma reta imparcialidade, recompensará cada um segundo as suas obras. A plenitude dessa retribuição acontecerá somente na consumação do século, na Segunda Vinda de Jesus Cristo. E, quanto ao tempo desse evento, a Bíblia ensina: “Vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança,  eis que lhe sobrevirá repentinamente destruição, como vem as dores do parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão” (1Ts. 5:2-3). E, por causa  dessa realidade, Cristo nos adverte: “Por isso, ficai também apercebidos, porque à hora em que não cuidais, o Filho do homem virá” (Mt. 24:44). “Então, se dirá: Na verdade, há recompensa para o justo; há um Deus, com efeito, que julga na terra” (Sl. 58:11).        

  

domingo, 17 de julho de 2016

Da Vocação Eficaz – Confissão de Fé – Cap. 10:1-2


Rev. Ivan G. G. Ross

Leitura Bíblia: Romanos 8: 26-30

Introdução: Um tempo atrás, fiz algumas anotações sobre o nono capítulo da Confissão de Fé: Do Livre Arbítrio. Na parte sobre “O Homem no Estado do Pecado”, fiz a pergunta: “Como é que Deus resolveu esse impasse?” (a depravação total do homem). E respondi: “Esse problema foi resolvido mediante uma intervenção da parte de Deus, elegendo e convertendo um “povo de propriedade exclusiva de Deus”.

Agora, seguindo no décimo capítulo da Confissão, “Da Vocação Eficaz”, aprendemos como Deus elege e converte um pecador. Mas, para facilitar a compreensão desse assunto, fazemos uma pergunta prática: Em termos humanos, qual é o caminho que devemos seguir, a fim de sermos salvos? A resposta inequívoca é: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At. 16:31). Quando cremos, em dependência do poder de Cristo, o Espírito Santo confirma a realidade da nossa fé. “Depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate de sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef. 1:13-14). Desta maneira, estamos unidos com Cristo. Qual é o resultado final? “E, assim, se alguém está em Cristo (unido com Ele) é nova criatura; as coisas antigas (os hábitos pecaminosos) já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co. 5:17). As coisas novas que agora praticamos chamam-se o fruto do Espírito Santo: “Mas o  fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl. 5:22-23).

Com essas verdades iniciadas em nós, Cristo nos exorta de uma maneira indispensável e urgente: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir de si mesmo se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim” (Jo. 15:4). E, permanecendo em Cristo, estamos prontos para entender como Deus elege e converte o pecador. Vamos seguir a exposição do assunto, como se encontra na Confissão de Fé da nossa Igreja.

1. O Momento do nosso Chamado. “Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, no tempo por ele determinado e aceito, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza para a graça e salvação em Jesus Cristo”. Aqui, podemos observar três verdades que precisamos entender e aceitar com toda seriedade:

a)      Como Deus nos chama. Notemos que Deus tem uma única maneira para chamar o seu povo; é pela (pregação da) sua Palavra e pelo seu Espírito”, e isso, de modo extensivo, sem qualquer restrição. A ordem é esta: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15). Os primeiros cristãos, apesar da perseguição, obedeceram a essa ordem: “Entrementes, os que foram dispersos (pela perseguição) iam por toda parte pregando a palavra” (At. 8:4). A pregação se torna eficaz para chamar o povo de Deus, porque é o Espírito Santo que a vivifica, (Jo. 6:63). Embora a pregação seja algo simples (a loucura da pregação – 1Co. 1:21), ela é eficaz para a salvação de todos que nela crêem. Como Cristo disse: “As minhas ovelhas (aquele povo que Deus predestinou para vida) ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo. 10:27). Seremos salvos, se confiarmos nos meios que Deus providenciou para a salvação da nossa vida.
b)      Quando é que Deus nos chama? É sempre o “tempo por ele determinado e aceito”. A porta para a salvação não continuará aberta indefinidamente. As cinco virgens não se prepararam, e quando resolveram agir, elas encontraram a porta fechada. Elas negligenciaram o Dia das Oportunidades, (Mt. 25. 10-13). Quanto à mulher Jezabel, Deus disse: “Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se  da sua prostituição” (Ap. 2:21). Quando o tempo determinado terminar, a oportunidade passará, e não haverá nenhuma outra. “Então, disse o Senhor: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal” (Gn. 6:3). Feliz a pessoa que pode reconhecer a voz do Senhor, afirmando: “Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação: eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2Co. 6:2). Se o homem quer continuar na prática de seu pecado por mais um tempinho, ele tem que enfrentar as conseqüências de sua cegueira. “E por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Rm. 1:28). Deste estado perigoso, talvez não haja mais esperança de salvação. Portanto, não perca o momento quando o Espírito Santo está sussurrando em seu coração através do ouvir da Palavra de Deus, pois pode ser a última vez. “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb. 2:3).
c)      Por que Deus nos chama? Para tirar-nos “daquele estado de pecado e morte em que estamos por natureza, para a graça e salvação em Jesus Cristo”. Ou, como o Ap. Paulo escreveu: Jesus Cristo “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos  desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de Deus nosso Pai” (Gl. 1:4). Em vez de deixar-nos sofrer as merecidas conseqüências da nossa rebeldia, Ele nos chamou para experimentar as  glórias de uma vida sem os pesadelos do pecado. Se alguém está em Cristo, de necessidade, está vivendo uma vida santa e irrepreensível, libertado do domínio sedutor do pecado. Essa santidade de vida é a prova inconfundível de que  Cristo tem nos chamado para a salvação.  

2. O Movimento do nosso Chamado. O que é que Deus movimenta em nossa vida para que sejamos santos e dignos da nossa vocação? “Isto ele o faz, iluminando o nosso entendimento, espiritual e salvificamente, a fim de compreendermos as coisas de Deus, tirando de nós os corações de pedra e dando-nos corações de carne, renovando as nossas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom”. Novamente, podemos observar três atos que Deus põe em movimento:

a)      Ele muda “o nosso entendimento, espiritual e salvificamente”. Tal mudança é necessária, porque os homens, em seu estado natural, andam “na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza de seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza”  (Ef. 4:17-19). Para o  incrédulo, a pregação de Cristo e este crucificado é uma loucura. E, se Deus não tivesse usado a sua misericórdia, “iluminando o nosso entendimento espiritual e salvíficamente”, o homem permaneceria em sua ignorância e ruína.
b)      Ele tira de nós o que impede a nossa conversão: “tirando de nós os corações de pedra e dando-nos corações de carne”, uma disposição suscetível para receber a vontade de Deus. Em outras palavras, Ele nos regenera. Como o Apóstolo explica: “Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo. E, sem essa obra soberana em nossa vida, jamais seríamos salvos. Mas, por causa dessa intervenção, podemos, agora, confessar que somos os “chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo” (Jd. 1)
c)      Ele renova a nossa faculdade de desejos. A regeneração envolve a renovação total  de todas as nossas inclinações: “renovando as suas disposições e determinando-as, pela sua onipotência, para aquilo que é bom”. Essa onipotência tem a seguinte exposição: “A eficácia da força do seu poder” (Ef. 1:19). Tudo o que Deus determina em nosso favor é eficaz, não pode sofrer frustrações e nem derrotas. “Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? (Is. 14:27). Em nosso estado natural, fomos possuídos por uma má vontade quanto às determinações de Deus; agora, porém, com “a força de seu poder”, desejamos “aquilo que é bom”. Descobrimos que a vontade de Deus para a nossa vida é “boa , agradável e perfeita” (Rm. 12:2). Por isso, nós nos conformamos a ela de todo o nosso coração. O Apóstolo confessou: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha  já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo” (Fp. 3:12). Fomos chamados e conquistados por Jesus Cristo a fim de vivermos uma vida santa e irrepreensível em cada área do nosso  procedimento, (Ef. 1:4).

3. O Modelo do nosso Chamado. O modelo é a Pessoa de Jesus Cristo. Ele é “o Anjo da Aliança, a quem vós desejais” (Ml. 3:1). O Espírito Santo trabalha mediante a pregação do evangelho, “atraindo-nos eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que nós vimos mui livremente, sendo por isso dispostos pela sua graça”. Observemos três passos nessa colocação:

a)      A Pessoa do nosso chamado. Somos atraídos eficazmente a Jesus Cristo. “Ora, a nossa comunhão (espiritual) é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo. 1:3). O Pai nos escolheu e o Espírito Santo nos conduz a Jesus Cristo, de quem recebemos “toda sorte de benção espiritual nas regiões celestiais” (Ef. 1:3). Cristo enfatizou diversas vezes que o Pai é o Autor da nossa chegada a seu Filho. “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo. 6:37). E, quando Cristo repreendeu seus ouvintes por sua auto-justiça, Ele explicou: “Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido”(Jo. 6:64-65). Mas, graças a Deus, o Dia está chegando quando Cristo poderá ter a satisfação de declarar: “Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu” (Hb. 2:10-13). O importante é ser achado em Cristo, pois, “aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo. 5:12). Devemos ficar gratos a Deus pela eficácia do seu chamado que nos trouxe a Jesus Cristo, de quem recebemos a vida eterna.
b)      A perfeição do nosso chamado. Todos nós somos influenciados por apelos à nossa receptividade de novidades, seja qual for o assunto. Por isso, quando alguém nos oferece algo desejável, nós o recebemos espontaneamente e livremente, porque o objeto tomou posse do nosso interesse. Assim acontece na vocação eficaz. Cristo é apresentado a nós de tal forma atraente e necessária para o nosso bem total, que ansiamos por ter parte  de sua companhia, e, estimulados, levantamos e nos aproximamos a Ele mui alegre e livremente. Como é edificante testemunhar: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus” (Fp. 1:6).
c)      A primazia do nosso chamado. Podemos experimentar nesta vida todas as bênçãos inerentes na vocação eficaz, “sendo para isso dispostos pela graça de Deus”. A gratuidade dos benefícios que Deus derrama sobre nós, mediante a vocação eficaz, é uma das realidades que demonstra tão vividamente a sua boa vontade para com os seus chamados. O Ap. Paulo podia exclamar maravilhado: “Estando nós mortos em nossos delitos (impossibilitados de realizar qualquer ação salvífica) nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos” (Ef. 2:5). E o Ap. Pedro, falando sobre essa mesma graciosidade, afirmou: “Visto como, pelo seu divino poder, nos tem sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelos quais nos tem sido doadas as suas  preciosas e mui grandes promessas, para que por  elas, vos torneis participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe. 1:3-4). Sim, somos salvos pela graça de Deus. “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém” (1Tm. 1:17).

Conclusão: Mediante a indiscriminada pregação do evangelho, “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt. 22:14). Em temos práticos, qual é a causa imediata dessa distinção? A culpa é sempre do homem. Alguns crêem, de coração, enquanto outros têm desculpas para não assumir um compromisso sério. Cristo ilustrou esses pretextos na parábola do Semeador: desinteresse, dificuldades religiosas, cuidados do mundo e ambições carnais, (Mt. 13:18-23).  “Por isso, quem crê no Filho (que assume um compromisso de fidelidade a Ele) tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho (recusando assumir um compromisso  de fidelidade a Ele) não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo. 3:36).


Mas, por outro lado, todos o que crêem verdadeiramente em Jesus Cristo, estão conscientes do auxílio de Deus em seu favor. Como Cristo disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo. 10:27-28). Quando alguém é chamado mediante a pregação do evangelho, o chamado é eficaz porque o Espírito Santo abre o coração do ouvinte para atender a mensagem ouvida (At. 16:14). Se alguém perguntar: Por que Deus nos chama? A resposta é simples e clara: somos chamados para sermos de Jesus Cristo,  para sermos santos (Rm. 1:6-7). “Porquanto Deus não nos chamou para a impureza e sim para a santificação” (1Ts. 4:7). Existe uma única maneira para saber se somos chamados, de fato, eficazmente ou não: mediante uma vida santa e irrepreensível, andando de modo digno da vocação pela qual fomos chamados, (Ef. 4:1). Que Deus abra o nosso entendimento para que reconheçamos, de verdade, a realidade do nosso estado espiritual.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A PAIXÃO (PADECIMENTO) DE CRISTO


Rev. Ivan G. G. Ross

Leitura Bíblica: Lucas 18:31-34

Introdução: Primeiro, quero justificar o uso da palavra “Paixão”. Ela é a tradução da palavra grega “Pathein”, que significa “paixão”. E, no Novo Testamento, ela sempre se refere ao “padecimento e morte de Jesus Cristo”. Em português, essa palavra é traduzida como padecido. “Depois de ter padecido, ele (Jesus) se apresentou vivo” (At. 1:3). A Bíblia em Inglês retém a palavra paixão (passion) neste versículo (KJV).

Ao meditarmos sobre o sofrimento e morte de Cristo, devemos lembrar que Ele nasceu “como de cordeiro, sem defeito e sem mácula” (1Pe. 1:19), a fim de “dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc. 10:45).  Ele recebeu o nome de Jesus – Salvador, “porque salvaria o seu povo dos pecados deles” (Mt. 1:21). A morte vicária, ou, substitutiva de Jesus Cristo é tão central para a fé cristã, que Ele mesmo instituiu a Ceia do Senhor, “Que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice anunciais a morte do Senhor, até  que ele venha” (1Co. 11:23-26). Desta maneira, Ele nos deu um ato físico para ajudar-nos a lembrar do preço pago a fim de nos conceder “ a redenção e a remissão dos pecados” (Cl. 1:14).

Para  facilitar a compreensão do assunto, nos limitaremos a mencionar os sete momentos em que Cristo sofreu durante as últimas vinte e quatro horas de sua vida aqui na terra. “Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés” (Hb. 10:12-13).

1. O Momento no Cenáculo, Mc. 14:15. O sofrimento de Cristo, de uma maneira sempre crescente, começou dentro deste recinto sagrado, na presença de seus discípulos. “Angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá” (Jo.13:21). Mas, apesar de saber que Ele seria traído, Ele não soltou nenhuma palavra de impedimento, antes, dirigiu-se aos discípulos fiéis, a fim de prepará-los e os fortalecer para que não vacilassem na fé por causa dos horrores prestes a acontecer. E, para isso, falou do seu amor para com eles. “ Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor de seus amigos. Vós sois os meus amigos se fazeis o que eu vos mando” (Jo. 15:13-14). “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a  sua vida por nós; e devemos dar a nossa pelos  irmãos (1Jo. 3:16). O Evangelho é este: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co. 15:3). Eles teriam que entender que a morte de Cristo seria o cumprimento das Escrituras do Antigo Testamento.

Veja como Ele cuidou  de seus discípulos, e de nós também, no Evangelho segundo João: No capítulo 14, Ele falou do consolo espiritual; da casa de seu Pai e do seu retorno: “Voltarei e vos recebereis para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Vs. 2-3). No capítulo 15, Ele falou da necessidade de permanecer nele.  Ele nos deu esta promessa: “Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e vos será feito” (V.7). No capítulo 16, temos a promessa do Consolador, o Espírito Santo, a fim de ajudar-nos em nossas tribulações, que são parte da vida cristã. “Se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei ... Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo anunciará” (Vs. 7 e 14). E, no capítulo 17, Cristo orou a seu Pai, relatando do cumprimento da sua missão. Ele também pediu que o trabalho começado continuasse. E, para o nosso consolo, orou por nós. “Não rogo somente por estes (os discípulos imediatos), mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” V.20.

2. O Momento no Getsêmani, Mc. 14:32. É aqui que começou, de uma maneira mais intensa, a luta invisível e indescritível para destruir o poder das trevas e do pecado. É uma luta que o Senhor Jesus tinha que enfrentar sozinho, pois os discípulos, apesar de estarem presentes, foram excluídos do conflito por um sono irresistível. Quem pode realmente entender o que Cristo estava experimentando naquela hora quando Ele “começou a entristecer-se e a angustiar-se”, confessando: “minha alma está profundamente triste até a morte”? Todavia, devemos sempre lembrar que, “Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo” (1Jo. 3:8).  Nessa hora, parece que o próprio céu ficou fechado contra Ele; pois teria que beber o cálice da ira de Deus contra o pecado, até a última gota. Nesse momento, o nosso Senhor confessou a sua total submissão à vontade de seu Pai: “Faça-se a tua vontade” (Mt. 26:37-42). Mas a luta dentro do íntimo do Senhor continuou sem qualquer alento. “E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc. 26:44). “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor (o Pai) fez cair sobre ele (o seu próprio filho) a iniqüidade de nós todos” (Is. 53:6). Mas a luta ainda não terminou, decepções e atrocidades ainda o guardavam.

3. O Momento na Traição, Mc. 14:44-45. Quando Jesus e seus discípulos saíram do jardim, eles enfrentaram o traidor: “ Tendo, pois, Judas recebido a escolta e, dos principais  sacerdotes e dos fariseus, alguns guardas, chegou a este lugar com lanternas, tochas e armas” (Jo. 18:3). Ali, Jesus recebeu aquele que o beijou traiçoeiramente, aquele que recebeu os elementos da Páscoa, como se fosse um verdadeiro amigo. O Salmista registrou, profeticamente, o que Jesus sentiu com aquele ato de hipocrisia: “Com efeito, não é o inimigo que me afronta; se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia que se exalta contra mim, pois dele me esconderia; mas és tu (Judas), homem meu igual, meu companheiro e o meu íntimo amigo. Juntos andávamos, juntos nos entretínhamos e íamos com a multidão à Casa de Deus” (Sl. 55:12-14). Com esse ato, todos os discípulos fugiram, deixando Jesus sozinho com os seus inimigos, (Mc. 14:50). Mais tarde, Pedro o seguiu de longe, porém, somente para negá-lo três vezes com juramentos. Quem pode descrever a tristeza mordente que Jesus sentiu quando olhou para o seu discípulo medroso? (Lc. 22:54-62). Novamente, Jesus sentia a solidão da sua missão, sozinho teria que receber “o castigo que nos traz a paz” e, sozinho, teria que pagar o preço da nossa redenção e o perdão dos nossos pecados, (Is. 53:4-5).

4. O Momento Perante o Sinédrio, Jo. 18:12-13). Vamos tentar assimilar o que está acontecendo. Jesus Cristo, o Deus conosco, o Deus Forte (Mt. 1:23; Is. 9:6) sendo conduzido, manietado, ao tribunal para ser sentenciado à morte, como se fosse um criminoso perigoso. O Ap. Paulo tentou pôr em palavras a disposição de Jesus nesse momento: “Pois ele,  subsistindo em forma de Deus, não julgou  como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou ... a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” (Fp. 2:5-8). Deixamos a profecia falar, para que possamos entender melhor o que estava acontecendo: “Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso” (Is. 53:3). O tribunal foi uma farsa da justiça, uma zombaria da santidade imaculada dos princípios da lei de Deus; contudo, desenrolou o processo com uma aparência de normalidade. Mas quando Jesus não respondeu para se defender, o sumo-sacerdote, assumindo uma atitude satânica, lembrando que esta foi a “hora e o poder das trevas” (Lc.22:53), resolveu usar o juramento mais solene diante da lei de Deus: “És tu o Cristo, o Filho do Deus bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc. 14:61-62). Jesus nunca perdeu a visão do seu lugar ao lado de seu Pai na glória e da sua volta para julgar vivos e mortos. Com esta declaração nobre, o ódio dos ouvintes se rompeu numa fúria enlouquecida: “Puseram-se alguns a cuspir nele, a cobrir-lhe o rosto, a dar-lhe murros e a dizer-lhe: Profetiza! E os guardas o tomaram a bofetadas” (Mc. 14:65). Tudo isso aconteceu dentro do local onde a justiça deveria constranger as reações de todos. De fato, Cristo experimentou o horror apavorante do pecado no seu íntimo, agora, Ele está sofrendo a crueldade do pecado em seu corpo físico. Assim, a escritura se cumpriu: “Odiaram-me sem motivo” (Jo. 15:24-25). E as atrocidades aumentarão,  implacavelmente.   

5. O Momento Perante Pilatos, Lc. 23:1-2. Desde o nascimento de Jesus, os poderosos queriam matá-lo. Primeiro foi Herodes. Ele mandou matar todos os meninos “de dois anos para baixo”, na esperança de atingir a vida do “recém-nascido Rei dos judeus” (Mt. 2:2,16). E, durante todo o seu ministério, os judeus procuraram matá-lo, (Jo. 5:18). E, agora, “levantando-se toda a assembléia, levaram Jesus a Pilatos. E ali passaram a acusá-lo, dizendo (mentiras). Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele, o Cristo, o rei. Então lhe perguntou Pilatos: És tu o rei dos judeus? Respondeu Jesus: Tu o dizes (ou seja, tu estás falando a verdade)” (Lc. 23:1-3). Com esta resposta, Pilatos o remeteu a Herodes. “Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto apartoso, e o devolveu a Pilatos” (Lc. 23:11). Pilatos não tinha nenhum desejo de praticar a justiça, contudo, apesar de perguntar a seus acusadores: “Que mal fez ele? De fato nada achei contra ele para condená-lo à morte; portanto,  depois de castigá-lo, solta-lo-ei”. Mas, pergunta-se: por que castigar um inocente? Mas a multidão insisitiu em vê-lo crucificado. “Então Pilatos dicidiu atender-lhes o pedido” (Lc. 23:22-24). Com estas palavras, Jesus foi entregue aos soldados. “Vestiram-no de púrpura e, tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça”, e o sujeitaram, incansavelmente, a todo tipo de zombarias e barbaridades. “Então conduziram Jesus para fora, com o fim de o crucificarem” (Mc. 15:16-20). Novamente, perguntamos: Por que tanta crueldade? Este foi o preço necessário para realizar a nossa redenção e conceder-nos  a vida eterna. “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado” (Is. 53:10).

6. O Momento da Crucificação, Mt. 27:31. Mas as desumanidades ainda não pararam. Vamos imaginar a cena: Jesus, totalmente indefeso, pendurado na cruz, mas o povo insistiu em multiplicar as suas dores. “Os que iam passando, blasfemavam dele... De igual modo os principais sacerdotes com os escribas, escarnecendo, entre si diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se; desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e creiamos” (Mt. 15:29-32). Mas, se Cristo tivesse descido da cruz sem completar a sua missão redentora, qual seria o destino espiritual do pecador? Não haveria nenhuma possibilidade de receber o perdão de seus pecados e nem a esperança de entrar na glória do céu; apenas “certa expectação horrível de juízo e fogo vindouro” (Hb. 10:27). As dores da crucificação continuam, e são intensificadas por causa das zombarias lançadas sobre Ele pelo povo. Mas parece que o Pai, não podendo mais suportar aquele escarcéu, interveio, e, “desde a hora sexta até à hora nona houve trevas sobre toda a terra”. O Pai impediu que aqueles zombeteiros testemunhassem Jesus bebendo as últimas gotas do cálice da ira de Deus contra o pecado. “Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Jesus estava sentindo, naquela hora, o terror de ficar sem Deus e sem o conforto de sua presença, (Mt. 27:45-46.). Mas, logo em seguida, a batalha contra o pecado terminou, e Jesus, com alta voz, exclamou vitoriosamente: “Esta consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito”  (Jo.. 19:30). Por meio de seus sofrimentos, Cristo é, agora, o Autor da salvação de todos aqueles que nele crêem (Hb. 2:10).

7. O Momento na Sepultura, Mt. 27:59-60. A realidade da morte de Jesus Cristo foi um fato incontestável. O seu sepultamento não aconteceu às escondidas, antes, foi um ato público, reconhecido por Pilatos e as autoridades eclesiásticas. Ninguém duvidava da realidade da sua morte, e morte de cruz!

A morte de Cristo despertou a consciência de dois homens piedosos. Até aquela hora, eles tinham escondido a sua fé na messiandade de Jesus; mas, agora, não querendo se ocultar mais, resolveram agir publicamente: “Rogaram a Pilatos lhe permitisse tirar o corpo de Jesus. Pilatos (depois de ter a certeza da morte de Jesus) lhos permitiu” (Jo. 19:38). Com esse ato de devoção, tomaram o corpo e lhe deram um sepultamento honrado, (Lc.23:52-53).

Parece que a possibilidade de uma ressurreição inquietava a consciência dos religiosos. Porventura, lembraram da recente ressurreição de Lázaro? Mas, seja qual for o verdadeiro motivo, solicitaram a Pilatos que providenciasse uma escolta para guardar o tumulo “com segurança” (Mt. 27:64), na esperança de impedir tal possibilidade. Mas a ressurreição corpórea de Jesus Cristo, como um fato incontestável, pertence a outro estudo...


Conclusão: Como podemos resumir o que temos abordado nesta reflexão? Citamos alguns textos das Escrituras para nos ajudar. Em primeiro lugar, a intervenção soberana da misericórdia de Deus: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm. 5:8). Por que Cristo, o Cordeiro de Deus, tinha que sofrer a morte? Quando Ele assumiu o nosso lugar diante da lei de Deus, “aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós (tratando-o como se fosse Ele o pecador), para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co. 5:21). Agora, qual é a nossa esperança espiritual? A Bíblia responde: “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo. 6:40). E, se realmente crermos, poderemos confessar: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”, (Rm. 5:1).