Vasos de Honra

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O DEUS DA REVELAÇÃO




Leitura Bíblica: Salmo 19: 1-14

Introdução:   Existem três livros que Deus tem dado a cada pessoa, para que elas tenham um conhecimento básico da sua existência e da sua vontade. O primeiro livro é visível à humanidade toda: A Expansão do Universo. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”. A existência e a harmonia que reina entre as multidões desta vastidão revelam que  o seu Autor é um Ser de poder infinito, dotado com os atributos de soberania, sapiência e misericórdia. Por isso, o homem que nega a realidade de Deus está negando a visibilidade do que os seus olhos estão contemplando. Por isso, tal homem é indesculpável e merece a indignação e a reprovação eterna. Contudo, esse livro é insuficiente para as necessidades atuais do homem, porque não fala nada sobre o que Deus requer do pecador e nem como ele pode ser salvo da ira vindoura. Por causa dessa lacuna, Deus, em sua muita misericórdia, nos deu um segundo livro, as Escrituras Sagradas, revelando o que o homem  deve crer sobre Deus e o dever que Ele requer dos homens. Por isso, a nossa Igreja recebe e crê de coração que as Escrituras Sagradas – o Antigo e o Novo Testamento – são a Palavra de Deus, a  única regra de fé e prática. A importância  insubstituível desse livro está no fato de que, crendo na sua veracidade, tornamo-nos “sábios para a salvação pela fé em Jesus Cristo” (2Tm. 3:15). E ainda resta um terceiro livro, a nossa consciência. A lei escrita que Deus deu a seu povo não está nas mãos de todas as nações, por isso, quando Ele nos criou “à sua imagem, conforme a sua semelhança”, Ele gravou o resumo da lei sobre a natureza de cada pessoa que nasce neste mundo. O Apóstolo, descrevendo a importância desse livro, disse: “Estes (todos os homens), mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Jesus Cristo, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho”, a mensagem que Deus lhe deu por revelação, (Rm. 2:14-15; Gl 1:11-12). A existência desses três livros é apresentada claramente no Salmo 19. Portanto, demonstremos reverência e temor diante da realidade dessas revelações. O Salmista confessou: “Arrepia-se-me a  carne com temor de ti, e temo os teus juízos”. (Sl. 119:120).

1. A Revelação na Expansão, Vs, 1-6. “Os céus proclamam a glória de Deus”.  Mas o que é essa glória? É a manifestação de sua natureza imensurável e de seu caráter incólume. Ele é um Deus cheio de atributos superlativos e gloriosamente atuantes. A primeira evidência dessa glória é a criação do mundo e de tudo o que nele há. O Ap. Paulo nos deu um parecer desse portento, dizendo: “O que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles (todos os homens), porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas criadas”. E veja a conclusão do Apóstolo: Por causa dessa revelação dada na criação, “tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo o conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” (Rm. 1:19-21). A negligência dessa revelação, dada por Deus através da criação, conduz o homem à sua própria destruição.

O Salmista toma duas realidades no universo e, numa linguagem singularmente poética, descreve as maravilhas da sua finalidade. Primeira: a sucessão ininterrupta da comunicação entre o dia e a noite: “Um dia discursa o outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra, se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo”. Essa sucessão de dia após dia demonstra a glória do poder organizador de Deus. Tanto o dia como a noite têm o seu propósito inalterável, aquele de anunciar a existência e a glória sapiente de Deus. Pela luz do dia vemos a providência de Deus para os homens, e a noite para lhes oferecer descanso. A lua foi dada para marcar o tempo; o sol obedece à hora certa de seu ocaso. Os animais obedecem ao seu lugar na criação. Agora, é o momento do homem. Ele sai para o seu trabalho e para os seus encargos até à tarde. E, diante dessa atividade que reflete tão claramente a glória soberana de Deus, o Salmista exclama: “Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl. 104: 19-24).

A segunda realidade é o sol. Na linguagem poética, o Senhor pôs uma tenda para o sol, um lugar no meio dos astros, a fim de lhe dar uma liberdade de movimento. “O qual como noivo que sai  dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus e até a outra vai o seu percurso.” Como o noivo sai do seu aposento, vestido de uma ostentação chamativa, assim, o sol se levanta com um esplendor pomposo que prende a nossa respiração, tamanha é sua glória. E, se ficamos tão maravilhados com a majestade reinante do sol, qual será a nossa reação quando estivermos face a face com Cristo, “o sol nascente das alturas”? (Lc. 1:78). O salmista continua a sua descrição do efeito benéfico do sol: “E nada refoge (esconde) ao seu calor”. Toda a criação sente a presença salubre do sol, uma manifestação visível da glória de Deus. Com reverência e admiração, podemos perguntar: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?” (Sl. 8:3-4).  E, de fato, Deus nos visitou mediante o envio de seu próprio Filho, Jesus Cristo. “Ele é o resplendor da glória e a expressão exata de seu  Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb.1:3).

2. A Revelação nas Escrituras, Vs. 7-11. Das palavras  inaudíveis da expansão, passamos a ouvir as palavras audíveis do próprio Deus, dando-nos uma revelação verbal de si mesmo, mediante palavras compreensíveis. Essa revelação chama-se “a lei de Deus”, abrangendo todos os detalhes da sua vontade, ensinando o que o homem deve crer sobre Deus e o dever que Ele requer de cada pessoa. O Salmista emprega seis palavras para descrever a natureza dessa lei e o seu poder benéfico sobre a vida do homem.

(1)   “A lei do Senhor é perfeita”, e se refere aos ensinos que Deus tem nos dado. O nosso testemunho deve ser “Para mim vale mais a lei que procede da tua boca do que milhares de ouro ou de prata... pois na tua lei está o meu prazer” (Sl. 119:72,77). E qual o efeito da lei sobre a nossa vida? Ela converte e restaura a alma, conduzindo-a de volta para uma vida de paz com Deus, “De maneira que a lei nos serviu de aio (instrutor) para nos conduzir a Cristo”, “ no qual temos a redenção, pelo seu sangue,  a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua  graça” (Gl. 3:24; Ef. 1:7).
(2)   “O testemunho do Senhor é fiel”, e se refere à palavra dada; ela é a verdade. O Apóstolo confirmou esse pensamento, dizendo: “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém, para glória de Deus, por nosso intermédio” (2Cr. 1:20). E qual o efeito desse testemunho? “Dá sabedoria aos símplices”. O Apóstolo comentou: “Expondo estas coisas (os testemunhos) aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido” (1Tm. 4:6).
(3)   Os preceitos do Senhor são retos”, e se referem aos regulamentos que direcionam o procedimento. O Apóstolo confessou: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos” (1Jo. 5:3). E qual o efeito? “Alegram o coração”. O Salmista disse: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo dia!” (Sl. 119:97).
(4)   “O mandamento do Senhor é puro”,  e se refere à norma que padroniza a vida moral e espiritual do homem. Nessa lei não há nenhuma injustiça. A missão dela é séria, porque “ninguém será justificado diante de Deus por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm. 3:20). O Apóstolo confessou: “Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás” (Rm. 7:7). A cobiça é a causa de todo tipo de crime que leva o homem  à destruição. Porém, quando reconhecida, confessada e abandonada, “Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo. 1:9). E qual o efeito do mandamento? Ele “ilumina os olhos”, para que possamos reconhecer o nosso estado espiritual diante do Deus santo.
(5)   “O temor do Senhor é límpido”, e se refere à reverência e adoração diante do Senhor. O temor ensina como devemos servir a Deus “de modo agradável, com reverência e santo temor” (Hb. 12:28). E qual o efeito? Essa atitude de temor é imutável, e “permanece para sempre”.
(6)   “Os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente justos”, e se referem às declarações da vontade de Deus. O que o Senhor determina para o seu povo é sempre o melhor para o seu bem total e jamais será confundido. O Apóstolo reconheceu essa verdade em termos da “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm. 12:2). Eis a nossa oração: “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por  terreno plano” (Sl. 143:10).

Agora, ainda falando sobre a revelação escrita, temos duas frases que descrevem o que o homem de Deus sente diante dessa iluminação. Ela é uma preciosidade, por isso, deseja conformar-se mais e mais às suas normas. “São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.”  Mas essa lei penetra a consciência, admoestando e ensinado a reconhecer as recompensas que recebe, quando obedecida. “Além disso (a preciosidade dos preceitos do Senhor), por eles se admoesta o  teu servo; em os guardar, há grande recompensa”. E, agora, uma palavra para despertar a nossa crença: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que  se torna galardoador dos que o buscam” (Hb.11:6).

3. A Revelação na Experiência, Vs. 12:14. Quando contemplamos os céus, a lua e as estrelas, somos  inconscientemente levados a refletir sobre o seu  Autor. Concluímos que Ele deve ser um Indivíduo, um Deus, com poder e sabedoria indescritíveis. Contudo, Ele pode ser conhecido. A Bíblia afirma: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre os homens, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”, se não tomarem conhecimento dele, (Rm. 1:19-20). Mas Deus não se revelou somente no silêncio da Expansão, mas, também, com palavras que podemos ouvir e entender, palavras que revelam a sua vontade para todos os homens. Como? “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, falou pelo Filho” (HB. 1:1-2). Quando Jesus Cristo foi transfigurado, a voz do Pai anunciou: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi” (Mt. 17:5). Agora, em nossos dias, a voz de Cristo se percebe mediante o ouvir e a leitura atenciosa das Escrituras Sagradas. Ele mesmo disse: “Em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida eterna” (Jo. 5:24).

À medida que ouvimos e lemos a Palavra de Deus, sentimos a realidade da nossa imperfeição moral. Somos pecadores e condenados diante da lei de Deus. Por isso, o Salmista pergunta: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?” Sentimos que a totalidade do nosso ser é contaminada pelo pecado. Tudo o que falamos e produzimos tem a marca da imperfeição, o que nos faz inaceitáveis diante do Deus perfeito em santidade. O profeta lamentou: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha e as nossas iniqüidades, como vento, nos arrebatam” (Is. 64:6). Mas a Bíblia nos oferece uma esperança: “Se confessarmos os nossos pecados (a Deus o Pai, em nome de Jesus Cristo) Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo. 1:9). Com essa expectativa, o salmista se fortaleceu, pedindo: “Absolve-me das (transgressões) que me são ocultas”. Não apenas das visíveis, mas, também, das invisíveis e secretas. Como é consolador sentir a misericórdia do nosso Deus: “Se observares, Senhor, iniqüidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (Sl. 130:3-4). É igualmente consolador saber que o Senhor “não nos  trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem” (Sl. 103:10-11).

Em seguida, o Salmista faz dois pedidos urgentes: “Também da soberba (aquela auto-suficiência) guarda o teu servo, que ela não me domine; então serei irrepreensível e ficarei livre da grande transgressão”, daquela tendência do homem pecador para confiar em suas próprias capacidades para se salvar, e, com isso, desprezar o que somente Deus pode fazer por meio da sua graça. E, continuando, consciente das suas próprias imperfeições, pede, de coração ansioso: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu”. As nossas palavras têm causado, muitas vezes, desgostos cortantes, por isso, o pedido do Salmista. O Apóstolo comentou: “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão capaz de refrear também todo o corpo” (Tg. 3:2). Nesse contexto, notemos como o Salmista se fortaleceu, citando dois preciosos atributos do Senhor: “Rocha minha”. Sobre essa Rocha, o Deus vivo e verdadeiro, depositamos todas as nossas esperanças espirituais. Confiamos na misericórdia do nosso Deus para suprir, em Cristo Jesus, cada uma das nossas necessidades, (Fp; 4:19). E ele continua: Ele é “Redentor meu”. Jesus Cristo é “aquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (Ap. 1:5). Convém entender a centralidade de Jesus Cristo na vida cristã. “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho (rejeitando os seus direitos sobre a nossa vida) não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo. 3:36) .

Conclusão: O Salmo 19 tem uma seqüência que começa com a revelação da natureza, ou seja, as obras da criação. Assim, descobrimos a existência de um Deus criador e vivo. Depois, somos introduzidos à revelação sobrenatural, ou seja, às Escrituras Sagradas, que nos ensinam tudo o que precisamos saber sobre Deus e o que Ele requer de nós. E, por fim, a revelação em nossa própria experiência, ou seja, o poder das Escrituras sobre a nossa consciência. Elas nos ensinam que somos pecadores e, por natureza, filhos da ira de Deus. Mas a Bíblia não nos deixa nesse estado de desespero, antes, ela nos conduz a Jesus Cristo, “ no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos nossos pecados, segundo a riqueza da sua graça”. Agora, temos um único dever inicial: crer, de coração, em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Que façamos assim.   

   

domingo, 17 de julho de 2016

Da Vocação Eficaz – Confissão de Fé – Cap. 10:1-2


Rev. Ivan G. G. Ross

Leitura Bíblia: Romanos 8: 26-30

Introdução: Um tempo atrás, fiz algumas anotações sobre o nono capítulo da Confissão de Fé: Do Livre Arbítrio. Na parte sobre “O Homem no Estado do Pecado”, fiz a pergunta: “Como é que Deus resolveu esse impasse?” (a depravação total do homem). E respondi: “Esse problema foi resolvido mediante uma intervenção da parte de Deus, elegendo e convertendo um “povo de propriedade exclusiva de Deus”.

Agora, seguindo no décimo capítulo da Confissão, “Da Vocação Eficaz”, aprendemos como Deus elege e converte um pecador. Mas, para facilitar a compreensão desse assunto, fazemos uma pergunta prática: Em termos humanos, qual é o caminho que devemos seguir, a fim de sermos salvos? A resposta inequívoca é: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At. 16:31). Quando cremos, em dependência do poder de Cristo, o Espírito Santo confirma a realidade da nossa fé. “Depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate de sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef. 1:13-14). Desta maneira, estamos unidos com Cristo. Qual é o resultado final? “E, assim, se alguém está em Cristo (unido com Ele) é nova criatura; as coisas antigas (os hábitos pecaminosos) já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co. 5:17). As coisas novas que agora praticamos chamam-se o fruto do Espírito Santo: “Mas o  fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl. 5:22-23).

Com essas verdades iniciadas em nós, Cristo nos exorta de uma maneira indispensável e urgente: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir de si mesmo se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim” (Jo. 15:4). E, permanecendo em Cristo, estamos prontos para entender como Deus elege e converte o pecador. Vamos seguir a exposição do assunto, como se encontra na Confissão de Fé da nossa Igreja.

1. O Momento do nosso Chamado. “Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, no tempo por ele determinado e aceito, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza para a graça e salvação em Jesus Cristo”. Aqui, podemos observar três verdades que precisamos entender e aceitar com toda seriedade:

a)      Como Deus nos chama. Notemos que Deus tem uma única maneira para chamar o seu povo; é pela (pregação da) sua Palavra e pelo seu Espírito”, e isso, de modo extensivo, sem qualquer restrição. A ordem é esta: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15). Os primeiros cristãos, apesar da perseguição, obedeceram a essa ordem: “Entrementes, os que foram dispersos (pela perseguição) iam por toda parte pregando a palavra” (At. 8:4). A pregação se torna eficaz para chamar o povo de Deus, porque é o Espírito Santo que a vivifica, (Jo. 6:63). Embora a pregação seja algo simples (a loucura da pregação – 1Co. 1:21), ela é eficaz para a salvação de todos que nela crêem. Como Cristo disse: “As minhas ovelhas (aquele povo que Deus predestinou para vida) ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo. 10:27). Seremos salvos, se confiarmos nos meios que Deus providenciou para a salvação da nossa vida.
b)      Quando é que Deus nos chama? É sempre o “tempo por ele determinado e aceito”. A porta para a salvação não continuará aberta indefinidamente. As cinco virgens não se prepararam, e quando resolveram agir, elas encontraram a porta fechada. Elas negligenciaram o Dia das Oportunidades, (Mt. 25. 10-13). Quanto à mulher Jezabel, Deus disse: “Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se  da sua prostituição” (Ap. 2:21). Quando o tempo determinado terminar, a oportunidade passará, e não haverá nenhuma outra. “Então, disse o Senhor: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal” (Gn. 6:3). Feliz a pessoa que pode reconhecer a voz do Senhor, afirmando: “Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação: eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2Co. 6:2). Se o homem quer continuar na prática de seu pecado por mais um tempinho, ele tem que enfrentar as conseqüências de sua cegueira. “E por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Rm. 1:28). Deste estado perigoso, talvez não haja mais esperança de salvação. Portanto, não perca o momento quando o Espírito Santo está sussurrando em seu coração através do ouvir da Palavra de Deus, pois pode ser a última vez. “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb. 2:3).
c)      Por que Deus nos chama? Para tirar-nos “daquele estado de pecado e morte em que estamos por natureza, para a graça e salvação em Jesus Cristo”. Ou, como o Ap. Paulo escreveu: Jesus Cristo “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos  desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de Deus nosso Pai” (Gl. 1:4). Em vez de deixar-nos sofrer as merecidas conseqüências da nossa rebeldia, Ele nos chamou para experimentar as  glórias de uma vida sem os pesadelos do pecado. Se alguém está em Cristo, de necessidade, está vivendo uma vida santa e irrepreensível, libertado do domínio sedutor do pecado. Essa santidade de vida é a prova inconfundível de que  Cristo tem nos chamado para a salvação.  

2. O Movimento do nosso Chamado. O que é que Deus movimenta em nossa vida para que sejamos santos e dignos da nossa vocação? “Isto ele o faz, iluminando o nosso entendimento, espiritual e salvificamente, a fim de compreendermos as coisas de Deus, tirando de nós os corações de pedra e dando-nos corações de carne, renovando as nossas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom”. Novamente, podemos observar três atos que Deus põe em movimento:

a)      Ele muda “o nosso entendimento, espiritual e salvificamente”. Tal mudança é necessária, porque os homens, em seu estado natural, andam “na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza de seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza”  (Ef. 4:17-19). Para o  incrédulo, a pregação de Cristo e este crucificado é uma loucura. E, se Deus não tivesse usado a sua misericórdia, “iluminando o nosso entendimento espiritual e salvíficamente”, o homem permaneceria em sua ignorância e ruína.
b)      Ele tira de nós o que impede a nossa conversão: “tirando de nós os corações de pedra e dando-nos corações de carne”, uma disposição suscetível para receber a vontade de Deus. Em outras palavras, Ele nos regenera. Como o Apóstolo explica: “Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo. E, sem essa obra soberana em nossa vida, jamais seríamos salvos. Mas, por causa dessa intervenção, podemos, agora, confessar que somos os “chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo” (Jd. 1)
c)      Ele renova a nossa faculdade de desejos. A regeneração envolve a renovação total  de todas as nossas inclinações: “renovando as suas disposições e determinando-as, pela sua onipotência, para aquilo que é bom”. Essa onipotência tem a seguinte exposição: “A eficácia da força do seu poder” (Ef. 1:19). Tudo o que Deus determina em nosso favor é eficaz, não pode sofrer frustrações e nem derrotas. “Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? (Is. 14:27). Em nosso estado natural, fomos possuídos por uma má vontade quanto às determinações de Deus; agora, porém, com “a força de seu poder”, desejamos “aquilo que é bom”. Descobrimos que a vontade de Deus para a nossa vida é “boa , agradável e perfeita” (Rm. 12:2). Por isso, nós nos conformamos a ela de todo o nosso coração. O Apóstolo confessou: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha  já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo” (Fp. 3:12). Fomos chamados e conquistados por Jesus Cristo a fim de vivermos uma vida santa e irrepreensível em cada área do nosso  procedimento, (Ef. 1:4).

3. O Modelo do nosso Chamado. O modelo é a Pessoa de Jesus Cristo. Ele é “o Anjo da Aliança, a quem vós desejais” (Ml. 3:1). O Espírito Santo trabalha mediante a pregação do evangelho, “atraindo-nos eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que nós vimos mui livremente, sendo por isso dispostos pela sua graça”. Observemos três passos nessa colocação:

a)      A Pessoa do nosso chamado. Somos atraídos eficazmente a Jesus Cristo. “Ora, a nossa comunhão (espiritual) é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo. 1:3). O Pai nos escolheu e o Espírito Santo nos conduz a Jesus Cristo, de quem recebemos “toda sorte de benção espiritual nas regiões celestiais” (Ef. 1:3). Cristo enfatizou diversas vezes que o Pai é o Autor da nossa chegada a seu Filho. “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo. 6:37). E, quando Cristo repreendeu seus ouvintes por sua auto-justiça, Ele explicou: “Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido”(Jo. 6:64-65). Mas, graças a Deus, o Dia está chegando quando Cristo poderá ter a satisfação de declarar: “Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu” (Hb. 2:10-13). O importante é ser achado em Cristo, pois, “aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo. 5:12). Devemos ficar gratos a Deus pela eficácia do seu chamado que nos trouxe a Jesus Cristo, de quem recebemos a vida eterna.
b)      A perfeição do nosso chamado. Todos nós somos influenciados por apelos à nossa receptividade de novidades, seja qual for o assunto. Por isso, quando alguém nos oferece algo desejável, nós o recebemos espontaneamente e livremente, porque o objeto tomou posse do nosso interesse. Assim acontece na vocação eficaz. Cristo é apresentado a nós de tal forma atraente e necessária para o nosso bem total, que ansiamos por ter parte  de sua companhia, e, estimulados, levantamos e nos aproximamos a Ele mui alegre e livremente. Como é edificante testemunhar: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus” (Fp. 1:6).
c)      A primazia do nosso chamado. Podemos experimentar nesta vida todas as bênçãos inerentes na vocação eficaz, “sendo para isso dispostos pela graça de Deus”. A gratuidade dos benefícios que Deus derrama sobre nós, mediante a vocação eficaz, é uma das realidades que demonstra tão vividamente a sua boa vontade para com os seus chamados. O Ap. Paulo podia exclamar maravilhado: “Estando nós mortos em nossos delitos (impossibilitados de realizar qualquer ação salvífica) nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos” (Ef. 2:5). E o Ap. Pedro, falando sobre essa mesma graciosidade, afirmou: “Visto como, pelo seu divino poder, nos tem sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelos quais nos tem sido doadas as suas  preciosas e mui grandes promessas, para que por  elas, vos torneis participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe. 1:3-4). Sim, somos salvos pela graça de Deus. “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém” (1Tm. 1:17).

Conclusão: Mediante a indiscriminada pregação do evangelho, “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt. 22:14). Em temos práticos, qual é a causa imediata dessa distinção? A culpa é sempre do homem. Alguns crêem, de coração, enquanto outros têm desculpas para não assumir um compromisso sério. Cristo ilustrou esses pretextos na parábola do Semeador: desinteresse, dificuldades religiosas, cuidados do mundo e ambições carnais, (Mt. 13:18-23).  “Por isso, quem crê no Filho (que assume um compromisso de fidelidade a Ele) tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho (recusando assumir um compromisso  de fidelidade a Ele) não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo. 3:36).


Mas, por outro lado, todos o que crêem verdadeiramente em Jesus Cristo, estão conscientes do auxílio de Deus em seu favor. Como Cristo disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo. 10:27-28). Quando alguém é chamado mediante a pregação do evangelho, o chamado é eficaz porque o Espírito Santo abre o coração do ouvinte para atender a mensagem ouvida (At. 16:14). Se alguém perguntar: Por que Deus nos chama? A resposta é simples e clara: somos chamados para sermos de Jesus Cristo,  para sermos santos (Rm. 1:6-7). “Porquanto Deus não nos chamou para a impureza e sim para a santificação” (1Ts. 4:7). Existe uma única maneira para saber se somos chamados, de fato, eficazmente ou não: mediante uma vida santa e irrepreensível, andando de modo digno da vocação pela qual fomos chamados, (Ef. 4:1). Que Deus abra o nosso entendimento para que reconheçamos, de verdade, a realidade do nosso estado espiritual.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

DO LIVRE ARBÍTRIO – CONFISSÃO DE FÉ CAP. IX


(A CAPACIDADE PARA ESCOLHER O QUE DESEJAMOS)

Rev. Ivan G. G. Ross

Texto Bíblico: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3:16-17).

O Motivo do Estudo: Existem muitas confusões e discórdias a respeito do “Livre Arbítrio”.  Contudo, cremos que a Bíblia tem ensinos claros e exemplos práticos sobre essa parte essencial da constituição humana. Portanto, como pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, quero reafirmar a minha plena aceitação do primeiro artigo no capítulo primeiro da nossa Constituição: “A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e do Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve...”. E, no ato da nossa ordenação para o ministério da Palavra de Deus, confessamos diante de Deus e da Igreja reunida, que cremos sinceramente na veracidade das Escrituras Sagradas e da Confissão de Fé e seus dois Catecismos. Portanto, ao comentar sobre o “Livre Arbítrio”, seguiremos a direção da nossa Confissão de Fé, porque cremos que ela oferece uma “fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras”. Como alguém disse: “Devemos voltar às raízes doutrinárias da nossa Igreja”.

1. A Natureza do Livre Arbítrio. “Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso é determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza.  Referências: Dt. 30:19; Jo. 7:17; Tg. 1:14; Ap. 22:17; Jo. 5:40. Parte 1ª.” Fazemos duas afirmações: O livre arbítrio é a faculdade que Deus nos concedeu para que possamos livremente o glorificar mediante as escolhas da nossa própria vontade. Quando tomamos uma decisão, estamos escolhendo entre outras opções, o que nós realmente queremos naquele momento. E, sabemos que a decisão tomada poderia ter sido outra, as circunstâncias sendo iguais. Por causa desse atributo, Deus coloca diante de nós desafios para que usemos a nossa capacidade para escolher. Ele deu a Adão o desafio para escolher entre duas árvores, mas, primeiro, dando-lhe a devida orientação para estimular a decisão certa. Se escolhesse o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o resultado seria a morte, separação de Deus. “E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente (inclusive da árvore da vida), mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2: 16-17).  E, embora não seja explícito, porém, implícito, se tivesse escolhido da árvore da vida, teriam uma vida de perfeição, confirmada para todo o sempre, (Gn 3:24). Por causa do livre arbítrio, Deus não impediu a escolha para comer do fruto da árvore proibida, por isso, Adão e Eva tinham que sofrer as conseqüências da sua decisão infeliz. Esse princípio continua em pleno vigor até os nossos dias. “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl. 6:7). Esse atributo nunca foi revogado, por isso, Deus continua apelando para a nossa capacidade para escolher responsavelmente. “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a benção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele; pois disto depende a tua vida e a tua longevidade” (Dt. 30:19-20).

A definição da palavra “livre”. Ser livre para escolher alguma coisa significa que podemos realmente agir de acordo com o desejo do momento. Ninguém escolhe algo contra a sua própria vontade. “Temos tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal”. Adão e Eva agiram de acordo com essa “liberdade natural”. Não há necessidade para incluir os propósitos de Deus nesse assunto. Se Ele estivesse agindo a decisão do casal não teria sido verdadeiramente livre, visto que a ação de Deus teria sido uma influência formativa na decisão. Todos nós somos dotados com propriedades, ou, instintos, que são necessários para a nossa sobrevivência, porém, no uso dessas capacidades “nem a isso é determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza”. Não somos obrigados a usar esses instintos indiscriminadamente. Esses dons foram concedidos para que sejam administrados para a glória de Deus. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co. 10:31). O livre arbítrio, em sua forma original, recebeu o louvor divino. “ Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1:31).    

2. O Homem no Estado de Inocência.  “O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas, mutavelmente, de sorte que pudesse cair dessa liberdade e poder. Referências: Gn. 1:26; Gn 2:16-17; Gn 3:6; Ex 7:29. Parte 2ª”. Deus criou o homem sem nenhum defeito, tanto na área espiritual bem como na área moral, uma retidão imaculada. Ele foi vestido com “o poder de querer fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas, mutavelmente, de sorte que pudesse cair dessa liberdade e poder”. Entendemos que essa frase se refere a um tempo probatório, um período no qual Adão e Eva teriam de provar, mediante uma escolha específica, a sua lealdade à liderança de Deus em suas vidas. Essa prova foi feita de uma maneira simples e prática, através de uma escolha de preferência entre as duas árvores específicas que cresciam no Jardim do Éden. Sabemos que o casal extrapolou a sua liberdade, o que resultou numa mudança negativa em seu caráter moral, perdendo a sua retidão original, que lhe dava pleno acesso à presença de Deus. Num sentido, todos nós nascemos dentro daquele estado probatório, temos que escolher a quem serviremos. “Então Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada respondeu” (1Rs 18:21). O silêncio do povo demonstrou a sua rebeldia, pois no fundo do coração, queriam continuar seguindo a sua própria vontade. O silêncio jamais inocentará a ninguém. Temos que tomar aquela decisão imperativa: a quem seguiremos e à quem obedeceremos. Jesus convida a todos: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida” (Jo. 6:47-48). Cristo é o Doador e o Sustentador da vida espiritual de seu povo.

3. O Homem no Estado do Pecado. “O homem, ao cair em pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Referência. Rm. 5:6 e 8:7-8; Jo. 15:5; Rm. 3:9, 12, 23; Ef. 2:1-5; Cl 2:13; Jo. 6:44, 65; 1Co. 2:14; Tt. 3:3-5. Parte 3ª”. Quando o homem  pecou, ele não perdeu o seu livre arbítrio; ele continua escolhendo o que ele realmente quer. Em termos temporais, o homem está livre para escolher seu estilo de vida. Ele não é obrigado a fazer nenhuma coisa que fere os seus princípios normais. Pode escolher a sua profissão, casar-se, divertir-se ou qualquer outra coisa de acordo com as suas inclinações e desejos. A sociedade secular funciona seguindo as tendências de cada um. Por outro lado, ele não é obrigado, forçosamente, a envolver-se em nenhuma dessas coisas.

Temos falado sobre a liberdade natural do homem, sem referir-se a seu estado religioso. Agora, vamos meditar sobre o efeito do pecado sobre a vida espiritual do homem. Ele não perdeu o seu livre arbítrio; o que ele perdeu foi o poder de usá-lo para o seu próprio bem espiritual. “O homem, ao cair no pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação”. O pecado, essa nova influência que entrou na vida do homem, é o poder que determina a natureza de suas escolhas. Eles são agora “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus” (2Tm. 3:4). Não podem escolher nada que se refere a seu melhoramento espiritual; não podem, porque não querem. “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” (Rm. 1:21). Qual foi a conseqüência dessa negligência do conhecimento de Deus? “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem cousas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade” (Rm. 1:28-29). “De sorte, que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem (tais como desejos de salvação), é morto no pecado, e incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso”. O homem ainda tem o livre arbítrio, porém, no estado de pecado, esse arbítrio é usado para alimentar a sua própria vontade, e, por conseqüência, a sua oposição a qualquer valor espiritual.

Como é que Deus resolveu esse impasse? Se tudo dependesse do livre arbítrio do homem, ninguém seria salvo, visto que todas as suas escolhas inclinam-se para o seu próprio egoísmo, que o afasta de Deus. Esse problema foi resolvido mediante uma intervenção soberana da parte de Deus, elegendo e convertendo um “povo de propriedade exclusiva de Deus”. Como o Apóstolo comentou: “Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, ter-nos-íamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra”, entregues à destruição. E, outra vez: “Assim, pois,  também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm. 11:15). Graças a Deus, alguns são salvos, “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt. 3:5).

4. O Homem no Estado de Graça. “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer, com toda liberdade, o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que,  por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas, também, o que é mau. Referência. Cl. 1:13; Jo. 8:34,36; Fp. 2:13; Rm. 6:18,22; Gl.5:17; Rm. 7:15,21-23; 1Jo. 1:8,10. Parte 4ª”. Começamos fazendo uma pergunta prática. Como é que Deus converte um pecador? Sem preocupar-nos com colocações teológicas, vamos apresentar, de maneira acessível, o que a Bíblia enfatiza. Somos convertidos pelo ouvir da Palavra de Deus. “A fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm. 10:16). Não devemos subestimar o poder das Escrituras. “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir a alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do  coração” (Hb. 4:12). É Deus que nos dá a oportunidade para ouvir o evangelho para que usemos a nossa vontade para crer na mensagem de Cristo. Por isso, o Apóstolo explica: “Depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef. 1:13-14). Note a seqüência que  opera na conversão de um pecador: ouvir, crer, e, tendo crido, a nossa fé é selada com o dom do Espírito Santo, a garantia da nossa salvação. Não existe nenhum outro meio para alcançar e converter o pecador, senão pelo ouvir do evangelho. Por que alguns ouvintes da Palavra não se convertem? Porque eles não crêem na mensagem ouvida, preferindo, acomodadamente, continuar praticando seu próprio estilo de vida pecaminoso. “Os homens amam mais as trevas do que a luz” (Jo. 3:19). Vamos entender e crer que Deus tem uma única maneira para comunicar a sua vontade ao mundo: é sempre mediante a pregação da sua Palavra; por isso, a insistência: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade” (2Tm. 4:2). Eis o método bíblico para que Deus possa converter o pecador.

O que acontece quando alguém se converte? “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer, com toda a liberdade, o que é espiritualmente bom”. O livre arbítrio continua agindo em sua vida, mas, agora, com o auxílio do Espírito Santo, ele procura escolher somente o que agrada a Deus. A conversão efetua uma verdadeira mudança em nossa disposição espiritual: “Ele (Deus o Pai) nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”(Cl. 1:13). Eis a evidência prática dessa mudança: “Assim, se alguém está (crê) em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram; eis que se fizeram novas” (2Co. 5:17). O convertido foge do pecado.

As limitações da nossa conversão. Apesar da mudança visível que a nossa conversão promove, a nossa habilidade para escolher nem sempre age como convém. “Por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas, também, o que é mau”. Cada cristão reconhece a realidade desse conflito espiritual e a luta entre o bem e o mal. Por isso, o Apóstolo, descrevendo essa “corrupção ainda existente” na vida do homem convertido, disse: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais, o que porventura, seja do vosso querer”. Podemos vencer essa luta porque é o Espírito Santo que nos dá o “poder de querer e de fazer aquilo que é bom e agradável a Deus”. Eis a exortação: “Digo, porém, andai no Espírito (obedecei às suas indicações) e jamais satisfareis a concupiscência da carne” (Gl. 5:16-17).   Por isso, a Bíblia está tão cheia de exortações, apelando para a nossa capacidade para escolher o que Deus requer de seu povo. Temos que agir como “filhos da obediência” (1Pe. 1:14).

5. O Homem no Estado de Glória. “É no estado de glória que a vontade do homem se tornará perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Referências. Ap. 22:3-4; Hb. 13:23; 1Jo. 3:2; Jd. 24; Sl 16:11;17:15; 23:6.  Parte 5ª”. Porque o Apóstolo escreveu: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.” (Fp 1:23). Certamente, ele tinha diversas razões. Mas, talvez a razão principal foi o desejo de ser definitivamente liberto de todos os pecados restantes que ainda existiam nele; um anseio de estar no meio “dos justos aperfeiçoados” (Hb. 12:23). Todos os salvos que têm ânsias por uma vida  aperfeiçoada têm a mesma experiência do Ap. Paulo: “E, por isso, neste tabernáculo, gememos (por causa da corrupção que ainda age em nossa vida), aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial” (2Co. 5:2). Como será essa “habitação celestial”? O Ap. João nos dá este relance: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo. 3:2). E, no livro do Apocalipse, temos esta esperança: No céu “os servos (do Senhor) o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele” (Ap. 22:3-4). O Ap. Pedro nos faz lembrar de uma verdade preciosa: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentro os mortos, para uma herança incorruptível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé para a salvação preparada para revelar-se  no último tempo” (1Pe. 1:3-5). Essa “viva esperança” nos prepara para o estado de glória, quando “a vontade do homem se tornará perfeita e imutavelmente livre para o bem só”. E, enquanto aguardamos o nosso chamado para a glória, temos esta promessa: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre” (Sl. 23:6). O Salmista tinha esta confiança: “Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança” (Sl. 17:15).


No ano de 1970, conversando com um pastor idoso e mui piedoso sobre o meu interesse na teologia dos reformadores, ele me deu este conselho, que procuro obedecer até hoje: Sim, devemos ter uma base sólida na teologia dos reformadores, mas, no púlpito, a Igreja não quer ouvir Teologia Sistemática, antes, ela quer ouvir a voz de Deus falando através das Escrituras Sagradas, pois, por meio delas, os ouvintes podem tornar-se sábios para a salvação pela fé em Jesus Cristo (2Tm. 3:15). Que esse conselho seja mais praticado nos púlpitos das nossas Igrejas.