Vasos de Honra

quinta-feira, 24 de março de 2016

A IMPORTÂNCIA DA RESSURREIÇÃO



 Leitura Bíblica: 1 Coríntios 15:20-26

Introdução: Creio que não há necessidade de repetir provas da ressurreição corpórea de Jesus Cristo, basta acreditar naquilo que a Bíblia afirma: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co. 15:20). Cristo foi o primeiro para ressuscitar escatologicamente dentre os mortos, e nós, o seu povo, o seguiremos no devido tempo. O que deve ocupar os nossos pensamentos é a importância da ressurreição de Jesus Cristo.

No Antigo Testamento, o sacrifício de animais prefigurava o sacrifício superior do Filho de Deus. Quando o animal foi imolado, ele jamais reviveu, e o pecado permanecia sobre ele, imperdoado. É a ressurreição que dá a eficácia ao sacrifício substitutivo. “Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus” (Hb. 10:12). É entendido que a ressurreição precedeu a sua ascensão. O fato de Cristo estar assentado à destra de Deus é uma posição de vitória, confirmando a aceitação desse sacrifício pelo Pai. Agora, em virtude da ressurreição de Cristo dentre os mortos, podemos afirmar, confiadamente, que “ nele, temos a redenção, pelo sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (Ef. 1:7). Da sua ressurreição emana “toda sorte de benção espiritual nas regiões celestiais” (Ef. 1:3). Vamos sentir a importância da ressurreição de Jesus Cristo, ouvindo a instrução do Catecismo de Heidelberg, que ensina:

“Perg 45. Que importância tem para nós a ressurreição de Cristo?
Resp. Primeiro: pela ressurreição, ele venceu a morte, para que nós pudéssemos participar da justiça que ele conquistou por sua morte.
Segundo:  nós, também, por seu poder, somos ressuscitados para a nova vida.
Terceiro: a ressurreição de Cristo é uma garantia da nossa ressurreição em glória.”

A resposta se divide em três pontos de suma relevância. O gozo da nossa salvação depende da compreensão dessas três dádivas que são concebidas a todos nós, os que cremos, por causa da ressurreição de Jesus Cristo.

“Primeiro: pela ressurreição, ele venceu a morte, para que nós pudéssemos participar da justiça que ele conquistou por sua morte”. Essa frase se refere à nossa justificação. “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm. 5:1). A morte de Cristo derrotou o poder da morte espiritual. Como? Mediante a sua perfeita obediência à lei de Deus e a sua morte vicária na cruz, Ele satisfez, plenamente, todas as exigências dessa lei, “para fazer cessar a transgressão, para dar fim  aos pecados, para expiar  a iniquidade, para trazer a justiça eterna” (Dn 9:24). Podemos dizer, com certo temor, que a morte, sozinha, não era suficiente “para dar fim aos pecados”, era necessário legitimar o sacrifício pela ressurreição corpórea do sacrificado. O Ap. Pedro deu esta explicação: “Sendo este (Jesus Cristo) entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o mataste, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto era impossível fosse ele retido por ela” (At. 2:23-24). A pessoa permanece no estado de morte enquanto o pecado continua sobre ela; porém, quando o pecado é removido, a morte perde o seu poder de prender a sua vítima, e, por necessidade, a vida é devolvida pela ressurreição corpórea. Tudo o que Cristo fez em favor de seu povo, chama-se: os méritos salvíficos de Cristo. Quando nós o recebemos como nosso Redentor e Salvador, passamos a ser “vestidos do Senhor Jesus Cristo”,  vestidos de todos os méritos que Ele alcançou por nós mediante a sua morte e ressurreição” (Rm.13:14). Quando Deus nos vê vestidos dessa maneira, Ele nos vê como inocentes, sem qualquer culpa, por isso, Ele nos declara como justificados diante da sua lei. Para esse fim, Jesus “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm. 4:25). Assim, percebemos a importância da ressurreição de Jesus Cristo, porque ela garante a nossa justificação.   

“Segundo: nós, também, por seu poder, somos ressuscitados para a nova vida”.  Essa parte se refere à nossa santificação. “Assim como  oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem a justiça para a santificação” (Rm. 6:19). Como é que conseguimos “servir a justiça para a santificação”? “A suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais” (Ef. 1:19-20). O poder que Deus usou para ressuscitar o seu Filho dentre os mortos é o mesmo poder que Ele empregou para nos conceder a nossa ressurreição espiritual, isto é, a nossa regeneração. “Estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos” (Ef. 2:5).

Quando nós recebemos Cristo como o nosso Salvador, passamos a ser espiritualmente “unidos com ele” (Rm.6:5). E, por causa dessa união, as suas experiências na morte, sepultamento e ressurreição, num sentido espiritual, são também as nossas. A Bíblia ensina: Quando Ele morreu para o pecado, nós, também, com Ele, morremos para o pecado, (Rm. 6:6). Mediante essa morte, o poder do pecado recebeu um golpe fatal. Por isso, o Apóstolo nos aconselhou: “Assim, também, vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus (...) Porque o pecado não terá domínio  sobre vós, pois não estais debaixo da lei e sim da graça” (Rm. 6:11,14). A graça de Deus é um novo princípio de direção que opera em nós. Por isso, o Apóstolo faz uma pergunta retórica: “Como viveremos ainda no pecado, nós, os para ele morremos?” (Rm. 6:2). Se nós estamos verdadeiramente unidos com Cristo em sua morte, é uma impossibilidade continuar, propositadamente, no pecado. A nossa santificação é garantida por causa do poder que emana da ressurreição de Jesus Cristo. Mas o Apóstolo continua falando sobre as consequências da nossa união com Cristo: “Fomos, pois, sepultados com Cristo na morte” (Rm.6:4). O sepultamento é o término de tudo o que praticamos aqui na Terra. Para aqueles que estão unidos com Cristo, o nosso pecado foi sepultado com Ele para sempre e nunca mais se levantará para nos assediar. Que verdade consoladora! Cantamos o hino: “Livres do medo! Já resgatados! Cristo morreu por nossos pecados! Na sua cruz o pacto se fez. Fomos remidos de uma vez” (NC. 150). E, a terceira experiência  que temos em virtude da nossa união com Cristo: “Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm. 6:5). Assim, como Cristo experimentou uma vida diferente e gloriosa, “também andemos nós em novidade de vida” (Rm.6:4). O poder da ressurreição de Cristo que opera em nós, nos dá, não somente uma vida santa e irrepreensível, mas, também, uma vida celestial, pois Ele nos ressuscitou, nos regenerou, “e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef. 2:6).  Dessa posição, temos as condições para praticar o que o Apóstolo recomendou: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentando à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morreste, e a vossa vida está oculta, juntamente com Cristo em Deus” (Cl. 3:1-3) A nossa santificação, que emana da ressurreição de Jesus Cristo, é de tal modo necessária, que, sem ela, ninguém verá o Senhor. Graças a Deus que podemos praticar essa santificação, quando a nossa vida é entregue à direção de Jesus Cristo. Ele é o nosso Redentor, Salvador e Senhor.     

“Terceiro: a ressurreição de Cristo é uma garantia da nossa ressurreição em glória”. Essa parte se refere a nossa Glorificação. “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2Co. 5:1). É muito difícil descrever como será a nossa glorificação, porque “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co. 2:9). Contudo, a Bíblia nos dá ligeiros relances da bem-aventurança dessa glorificação. Vamos sempre lembrar que “a ressurreição de Jesus Cristo é uma garantia da nossa ressurreição em glória”. Cristo nos deu uma promessa que nos consola enquanto aguardamos a nossa glorificação vindoura. “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu  vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo. 14:1-3). Parte da nossa glorificação é poder habitar nesse lugar preparado nas moradas do Pai, onde estaremos com o Senhor, contemplando a sua face, para todo o sempre. O Salmista fez uma pergunta comovente: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra” (Sl. 73:25). Por isso, o Apóstolo podia confessar, saudosamente: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp. 1:23). Nesse contexto, podemos cantar: “Graça real! Não há mais castigo! Não mais temor, nem sombra de perigo! Vestes reais, não triste nudez,  Cristo enriquece de uma vez! Sim, de uma vez! Amigo acredita, no Salvador tens sorte bendita! Cristo na cruz, a lei satisfez e redimiu-nos de  uma vez!” (NC 150). O Ap. João alimenta o nosso coração quanto a nossa esperança vindoura: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que,  quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo. 3:2). Vamos valorizar mais e mais a Pessoa de Jesus Cristo, “a quem, não havendo visto, amais; no qual não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma” (1Pe. 1:8-9).

Conclusão: Devemos estar preparados para responder a pergunta: “Que importância tem para nós a ressurreição de  Cristo?” Ela deve ocupar um lugar central em nossa crença, pois a nossa compreensão das experiências  cristãs de justificação, santificação e glorificação dependem desta verdade. O desejo incansável do Ap. Paulo foi: conhecer a Cristo, “e o poder da sua ressurreição” (Fp. 3:10). Que nós tenhamos um anseio semelhante!



Rev. Ivan G. G. Ross
Páscoa de 2016

O PROPÓSITO DE DEUS



 Leitura Bíblica: Romanos 8:28-30

Introdução: O V.28 fala “daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados  segundo o seu propósito”. E o V.29 afirma que esse propósito é que aqueles que amam a Deus sejam transformados a ponto de “serem conformes à imagem do Filho de Deus”. Essa transformação se refere ao nosso estado na eternidade. “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo. 3:2). Seremos transformados  “na sua própria imagem” (2Co. 3:18). Mas cremos que essa frase comporta uma aplicação prática para os nossos dias. O propósito de Deus é que o seu povo seja transformado a ponto de “serem conformes à imagem do Filho de Deus”, imitadores  em seu modo de viver e de servir a Deus. O Ap. podia exortar: “Sede meus imitadores como também eu sou de Cristo” (1Co. 11:1). E esse propósito é tão garantido que não existe coisa alguma que possa impedir o pleno cumprimento. “Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? A sua mão está estendida (para controlar soberanamente todas as possíveis circunstâncias que possam acontecer); quem, pois, a fará voltar?” (Is. 14:27). Com tal palavra profética, o Ap. Paulo perguntou retoricamente: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou” – o Senhor Jesus Cristo, o Autor e Consumador da nossa  fé, (Rm. 8:35-37, Hb.12;2).

Cremos que antes da fundação do mundo um “povo de propriedade exclusiva de Deus” foi escolhido do meio de todas as nações. E, no céu, viveremos esta realidade. O Ap. João recebeu uma visão desses escolhidos, e registrou: “Vi, e eis  grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos” (Ap. 7:9). Essas vestiduras brancas simbolizam a sua pureza, porque “lavaram as vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap. 7:14). E as palmas em suas mãos simbolizam a sua alegria e gratidão, podendo servir a Deus de dia e de noite no seu santuário. Esta é a “Igreja dos primogênitos arrolados nos céus, os justos aperfeiçoados” (Hb. 12:23).

Agora, temos que descobrir como Deus conseguiu separar esse povo para si, a fim de pôr em andamento o cumprimento do seu propósito. O V. 30 fala de três passos usados nesse processo.

Primeiro, Ele nos chamou. “ E aos que predestinou (aos que Ele separou do meio das nações) a esses também chamou”. Deus nos chama mediante o ouvir do Evangelho do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Ele é o Autor de todo o processo, como Ele mesmo afirma: “Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador. Eu anunciei salvação, realizei-a, e a fiz ouvir” (Is. 43:11-12). Notemos a tríplice ênfase: O Senhor é o Autor do plano de salvação; Ele transformou o plano em uma realidade, fazendo o seu próprio Filho carregar os nossos pecados para o esquecimento; e Ele mesmo fez o seu povo ouvir essa mensagem. Como? Mediante o envio de pregadores do Evangelho. É indispensavelmente necessário que essa notícia seja anunciada e recebida pela fé. Nesse contexto, o Apóstolo faz mais uma pergunta afetada: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm. 10:14). A Igreja, os membros particulares, tem o dever inadiável de obedecer à ordem de Jesus Cristo: “Ide por todo o mundo e pregai  o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15). A Igreja primitiva obedecia essa ordem: “Os (cristãos) que  foram dispersos iam por toda parte, pregando a palavra” (At. 8:4).

Por que é tão necessário semear a palavra de Deus? Porque sem ela o Espírito Santo  não pode realizar a sua obra de regeneração e nem comunicar o dom da fé. Devemos lembrar que a espada do Espírito Santo é a Palavra de Deus. Quanto à regeneração, o Ap. Pedro ensinou: “Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Pe. 1:23). E, semelhantemente, o Ap. Paulo ensinou quanto ao  recebimento do dom da fé:  “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm. 10:17). Cremos naquilo que a nossa Confissão de Fé ensina: Deus chama eficazmente o seu povo pela sua palavra  e pelo seu Espírito Santo, (Con. De Fé, 10:1).
Segundo, Ele nos justificou. “E aos que chamou, a esses também justificou”. Para apreciar melhor o plano da salvação, devemos lembrar que Deus está lidando com pessoas que não o amam, que não o buscam e que não o temem. E, por causa de seus pecados, já foram condenados à morte, ao banimento eterno da presença de Deus. Para libertar o seu povo dessa condenação, era necessário estabelecer um plano de redenção, providenciando alguém que podia pagar o preço do resgate. O próprio pecador é totalmente falido e incapaz de redimir-se a si mesmo, porque o salário do pecado é a morte. Não existe nenhuma outra maneira para resolver o problema do pecado, senão a morte. Ora, como pode o pecador sofrer a morte e banimento da presença de Deus e, ao mesmo tempo, viver e desfrutar da presença de Deus? É uma impossibilidade!

Nesse contexto, entendemos porque Deus tinha que agir soberanamente, independente de qualquer participação ou contribuição da parte do pecador. Por isso, Ele fala de uma maneira exclusiva: “Todo homem saberá que eu sou o Senhor, o teu Salvador e o teu Redentor, o Poderoso de Jacó” (Is. 49:26). Qual foi a sua maneira de agir? “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm. 5:8). Deus, em sua misericórdia, apresentou a nós o seu plano de substituição: um fiador, um que podia  incumbir-se da dívida de outro. E, não havendo nenhum outro para assumir vicariamente a dívida do pecador diante da lei inalterável de Deus, Ele “enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob (a condenação da) lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl. 4:4-5). Essa é a essência do Evangelho que deve ser proclamado aos pecadores, para que sejam salvos pela fé na sua veracidade.

A Bíblia enfatiza a necessidade de crer nessas  boas notícias: “Cristo veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos quantos o  receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem em seu nome” (Jo. 1:11-12). Quando recebemos e cremos em Jesus Cristo e este crucificado, passamos a ser vestidos de todos os seus méritos salvíficos. Por isso, quando Deus nos vê vestidos desta maneira, Ele nos vê como inocentes, a mesma perfeição de seu próprio Filho, e, sendo assim, declara a nossa inocência, e nos justifica por causa de seu Filho amado. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé (na obra redentora de Jesus Cristo), independente das obras da lei” (Rm. 3:28). Observe a ilustração que o Apóstolo usa para descrever a gratuidade da nossa justificação, sem qualquer contribuição da nossa parte: “Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim, como dívida. Mas ao que não trabalha, porém, crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça”. E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras (Rm. 4:4-6).

Terceiro, Ele nos glorificou. “E aos que justificou, a esses também glorificou”. A plenitude dessa glorificação será concedida somente quando entrarmos nas moradas celestiais; contudo, mesmo nesta vida, podemos experimentar as primícias da nossa glorificação vindoura. Podemos fazer algumas comparações a fim de sentir a realidade destes primeiros efeitos da nossa  bem-aventurança. “Estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo”. Do estado de morte espiritual, Ele nos regenerou, dando-nos uma verdadeira ressurreição dentre os mortos. Agora, temos vida em Cristo Jesus. Mas não apenas vida, Ele “nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus”, de onde temos pleno acesso “ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Ef. 2:5-6, Hb 4:16). Não é esta uma glorificação, uma felicidade sem igual?

“Ele (Deus Pai) nos libertou das trevas e nos transportou para o reino do Filho de seu amor” (Cl. 1:13). Outrora, vivíamos nas trevas, sem Cristo, separados da comunidade do povo de Deus e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, sem Deus e sem as suas bênçãos alentadoras em nossa vida (Ef. 2:12). E, ainda o pior: Uma consciência inquieta, sabendo: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb. 10:31). Mas esse desespero já passou, não estamos mais nas trevas; pela misericórdia da graça de Deus estamos no reino de Jesus Cristo: “a quem não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma” (1Pe. 1:8-9). Certamente esta é uma glorificação que deixa o nosso coração transbordar de gratidão!

E, por fim, a última comparação. Vamos contemplar o tribunal de Cristo, que será instalado na consumação dos séculos. Ele se assentará no trono da sua glória para julgar todas as nações que estão reunidas na sua presença. Haverá um processo de separação, alguns à sua direita, e os demais à sua esquerda. Podemos imaginar o medo que estará latejando em cada coração, cada um aguardando a palavra do Juiz. Agora, vamos sentir o contraste entre os dois grupos. As pessoas à sua direita, aquelas que creram em Jesus Cristo como seu único Salvador, ouvirão estas palavras consoladoras: “Vinde benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino preparado desde a fundação do mundo”. Nesse reino, os redimidos experimentarão a plenitude da sua glorificação, estando na presença do Senhor para todo o sempre. Mas, as pessoas à sua esquerda, aquelas que fizeram pouco caso de Jesus Cristo e das suas ofertas de salvação,  preferindo os prazeres transitórios deste mundo, ouvirão estas palavras fatídicas: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. E o texto termina, dizendo: “E irão estes (os malditos) para o castigo eterno, porém, os justos, para a vida eterna” (Mt. 25:31-46). Nada de glorificação, antes, “sofrerão penalidade de eterna destruição (que jamais terminará), banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”, o único que poderia lhes oferecer qualquer alento (2Ts. 1:9). Como podemos evitar o estado de sofrimento interminável? Cristo e este crucificado tem que ser reconhecido e recebido como o único Salvador. “Por isso, quem crê no Filho tem a vida; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo. 3:36).


Conclusão: Se alguém desejar entrar na vida cristã, tem que começar lendo e ouvindo e praticando os ensinos da Palavra de Deus. “Bem-aventurados aqueles que lêem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nelas escritas, pois o tempo está próximo” (Ap. 1:3). Notemos os três verbos: ler, ouvir e guardar. Agora, ouvimos a palavra do Apóstolo: “Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rm. 2:13). Pelo estudo da Palavra de Deus, nós entendemos a bem-aventurança de sermos chamados, justificados e glorificados, bênçãos que pertencem somente àqueles que crêem em Jesus Cristo e permanecem nele. 

Rev. Ivan G. G. Ross
    

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

DO LIVRE ARBÍTRIO – CONFISSÃO DE FÉ CAP. IX


(A CAPACIDADE PARA ESCOLHER O QUE DESEJAMOS)

Rev. Ivan G. G. Ross

Texto Bíblico: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3:16-17).

O Motivo do Estudo: Existem muitas confusões e discórdias a respeito do “Livre Arbítrio”.  Contudo, cremos que a Bíblia tem ensinos claros e exemplos práticos sobre essa parte essencial da constituição humana. Portanto, como pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, quero reafirmar a minha plena aceitação do primeiro artigo no capítulo primeiro da nossa Constituição: “A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e do Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve...”. E, no ato da nossa ordenação para o ministério da Palavra de Deus, confessamos diante de Deus e da Igreja reunida, que cremos sinceramente na veracidade das Escrituras Sagradas e da Confissão de Fé e seus dois Catecismos. Portanto, ao comentar sobre o “Livre Arbítrio”, seguiremos a direção da nossa Confissão de Fé, porque cremos que ela oferece uma “fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras”. Como alguém disse: “Devemos voltar às raízes doutrinárias da nossa Igreja”.

1. A Natureza do Livre Arbítrio. “Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso é determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza.  Referências: Dt. 30:19; Jo. 7:17; Tg. 1:14; Ap. 22:17; Jo. 5:40. Parte 1ª.” Fazemos duas afirmações: O livre arbítrio é a faculdade que Deus nos concedeu para que possamos livremente o glorificar mediante as escolhas da nossa própria vontade. Quando tomamos uma decisão, estamos escolhendo entre outras opções, o que nós realmente queremos naquele momento. E, sabemos que a decisão tomada poderia ter sido outra, as circunstâncias sendo iguais. Por causa desse atributo, Deus coloca diante de nós desafios para que usemos a nossa capacidade para escolher. Ele deu a Adão o desafio para escolher entre duas árvores, mas, primeiro, dando-lhe a devida orientação para estimular a decisão certa. Se escolhesse o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o resultado seria a morte, separação de Deus. “E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente (inclusive da árvore da vida), mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2: 16-17).  E, embora não seja explícito, porém, implícito, se tivesse escolhido da árvore da vida, teriam uma vida de perfeição, confirmada para todo o sempre, (Gn 3:24). Por causa do livre arbítrio, Deus não impediu a escolha para comer do fruto da árvore proibida, por isso, Adão e Eva tinham que sofrer as conseqüências da sua decisão infeliz. Esse princípio continua em pleno vigor até os nossos dias. “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl. 6:7). Esse atributo nunca foi revogado, por isso, Deus continua apelando para a nossa capacidade para escolher responsavelmente. “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a benção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele; pois disto depende a tua vida e a tua longevidade” (Dt. 30:19-20).

A definição da palavra “livre”. Ser livre para escolher alguma coisa significa que podemos realmente agir de acordo com o desejo do momento. Ninguém escolhe algo contra a sua própria vontade. “Temos tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal”. Adão e Eva agiram de acordo com essa “liberdade natural”. Não há necessidade para incluir os propósitos de Deus nesse assunto. Se Ele estivesse agindo a decisão do casal não teria sido verdadeiramente livre, visto que a ação de Deus teria sido uma influência formativa na decisão. Todos nós somos dotados com propriedades, ou, instintos, que são necessários para a nossa sobrevivência, porém, no uso dessas capacidades “nem a isso é determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza”. Não somos obrigados a usar esses instintos indiscriminadamente. Esses dons foram concedidos para que sejam administrados para a glória de Deus. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co. 10:31). O livre arbítrio, em sua forma original, recebeu o louvor divino. “ Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1:31).    

2. O Homem no Estado de Inocência.  “O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas, mutavelmente, de sorte que pudesse cair dessa liberdade e poder. Referências: Gn. 1:26; Gn 2:16-17; Gn 3:6; Ex 7:29. Parte 2ª”. Deus criou o homem sem nenhum defeito, tanto na área espiritual bem como na área moral, uma retidão imaculada. Ele foi vestido com “o poder de querer fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas, mutavelmente, de sorte que pudesse cair dessa liberdade e poder”. Entendemos que essa frase se refere a um tempo probatório, um período no qual Adão e Eva teriam de provar, mediante uma escolha específica, a sua lealdade à liderança de Deus em suas vidas. Essa prova foi feita de uma maneira simples e prática, através de uma escolha de preferência entre as duas árvores específicas que cresciam no Jardim do Éden. Sabemos que o casal extrapolou a sua liberdade, o que resultou numa mudança negativa em seu caráter moral, perdendo a sua retidão original, que lhe dava pleno acesso à presença de Deus. Num sentido, todos nós nascemos dentro daquele estado probatório, temos que escolher a quem serviremos. “Então Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o. Porém o povo nada respondeu” (1Rs 18:21). O silêncio do povo demonstrou a sua rebeldia, pois no fundo do coração, queriam continuar seguindo a sua própria vontade. O silêncio jamais inocentará a ninguém. Temos que tomar aquela decisão imperativa: a quem seguiremos e à quem obedeceremos. Jesus convida a todos: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida” (Jo. 6:47-48). Cristo é o Doador e o Sustentador da vida espiritual de seu povo.

3. O Homem no Estado do Pecado. “O homem, ao cair em pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Referência. Rm. 5:6 e 8:7-8; Jo. 15:5; Rm. 3:9, 12, 23; Ef. 2:1-5; Cl 2:13; Jo. 6:44, 65; 1Co. 2:14; Tt. 3:3-5. Parte 3ª”. Quando o homem  pecou, ele não perdeu o seu livre arbítrio; ele continua escolhendo o que ele realmente quer. Em termos temporais, o homem está livre para escolher seu estilo de vida. Ele não é obrigado a fazer nenhuma coisa que fere os seus princípios normais. Pode escolher a sua profissão, casar-se, divertir-se ou qualquer outra coisa de acordo com as suas inclinações e desejos. A sociedade secular funciona seguindo as tendências de cada um. Por outro lado, ele não é obrigado, forçosamente, a envolver-se em nenhuma dessas coisas.

Temos falado sobre a liberdade natural do homem, sem referir-se a seu estado religioso. Agora, vamos meditar sobre o efeito do pecado sobre a vida espiritual do homem. Ele não perdeu o seu livre arbítrio; o que ele perdeu foi o poder de usá-lo para o seu próprio bem espiritual. “O homem, ao cair no pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação”. O pecado, essa nova influência que entrou na vida do homem, é o poder que determina a natureza de suas escolhas. Eles são agora “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus” (2Tm. 3:4). Não podem escolher nada que se refere a seu melhoramento espiritual; não podem, porque não querem. “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” (Rm. 1:21). Qual foi a conseqüência dessa negligência do conhecimento de Deus? “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem cousas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade” (Rm. 1:28-29). “De sorte, que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem (tais como desejos de salvação), é morto no pecado, e incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso”. O homem ainda tem o livre arbítrio, porém, no estado de pecado, esse arbítrio é usado para alimentar a sua própria vontade, e, por conseqüência, a sua oposição a qualquer valor espiritual.

Como é que Deus resolveu esse impasse? Se tudo dependesse do livre arbítrio do homem, ninguém seria salvo, visto que todas as suas escolhas inclinam-se para o seu próprio egoísmo, que o afasta de Deus. Esse problema foi resolvido mediante uma intervenção soberana da parte de Deus, elegendo e convertendo um “povo de propriedade exclusiva de Deus”. Como o Apóstolo comentou: “Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, ter-nos-íamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra”, entregues à destruição. E, outra vez: “Assim, pois,  também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm. 11:15). Graças a Deus, alguns são salvos, “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt. 3:5).

4. O Homem no Estado de Graça. “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer, com toda liberdade, o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que,  por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas, também, o que é mau. Referência. Cl. 1:13; Jo. 8:34,36; Fp. 2:13; Rm. 6:18,22; Gl.5:17; Rm. 7:15,21-23; 1Jo. 1:8,10. Parte 4ª”. Começamos fazendo uma pergunta prática. Como é que Deus converte um pecador? Sem preocupar-nos com colocações teológicas, vamos apresentar, de maneira acessível, o que a Bíblia enfatiza. Somos convertidos pelo ouvir da Palavra de Deus. “A fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm. 10:16). Não devemos subestimar o poder das Escrituras. “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir a alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do  coração” (Hb. 4:12). É Deus que nos dá a oportunidade para ouvir o evangelho para que usemos a nossa vontade para crer na mensagem de Cristo. Por isso, o Apóstolo explica: “Depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef. 1:13-14). Note a seqüência que  opera na conversão de um pecador: ouvir, crer, e, tendo crido, a nossa fé é selada com o dom do Espírito Santo, a garantia da nossa salvação. Não existe nenhum outro meio para alcançar e converter o pecador, senão pelo ouvir do evangelho. Por que alguns ouvintes da Palavra não se convertem? Porque eles não crêem na mensagem ouvida, preferindo, acomodadamente, continuar praticando seu próprio estilo de vida pecaminoso. “Os homens amam mais as trevas do que a luz” (Jo. 3:19). Vamos entender e crer que Deus tem uma única maneira para comunicar a sua vontade ao mundo: é sempre mediante a pregação da sua Palavra; por isso, a insistência: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade” (2Tm. 4:2). Eis o método bíblico para que Deus possa converter o pecador.

O que acontece quando alguém se converte? “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer, com toda a liberdade, o que é espiritualmente bom”. O livre arbítrio continua agindo em sua vida, mas, agora, com o auxílio do Espírito Santo, ele procura escolher somente o que agrada a Deus. A conversão efetua uma verdadeira mudança em nossa disposição espiritual: “Ele (Deus o Pai) nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”(Cl. 1:13). Eis a evidência prática dessa mudança: “Assim, se alguém está (crê) em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram; eis que se fizeram novas” (2Co. 5:17). O convertido foge do pecado.

As limitações da nossa conversão. Apesar da mudança visível que a nossa conversão promove, a nossa habilidade para escolher nem sempre age como convém. “Por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas, também, o que é mau”. Cada cristão reconhece a realidade desse conflito espiritual e a luta entre o bem e o mal. Por isso, o Apóstolo, descrevendo essa “corrupção ainda existente” na vida do homem convertido, disse: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais, o que porventura, seja do vosso querer”. Podemos vencer essa luta porque é o Espírito Santo que nos dá o “poder de querer e de fazer aquilo que é bom e agradável a Deus”. Eis a exortação: “Digo, porém, andai no Espírito (obedecei às suas indicações) e jamais satisfareis a concupiscência da carne” (Gl. 5:16-17).   Por isso, a Bíblia está tão cheia de exortações, apelando para a nossa capacidade para escolher o que Deus requer de seu povo. Temos que agir como “filhos da obediência” (1Pe. 1:14).

5. O Homem no Estado de Glória. “É no estado de glória que a vontade do homem se tornará perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Referências. Ap. 22:3-4; Hb. 13:23; 1Jo. 3:2; Jd. 24; Sl 16:11;17:15; 23:6.  Parte 5ª”. Porque o Apóstolo escreveu: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.” (Fp 1:23). Certamente, ele tinha diversas razões. Mas, talvez a razão principal foi o desejo de ser definitivamente liberto de todos os pecados restantes que ainda existiam nele; um anseio de estar no meio “dos justos aperfeiçoados” (Hb. 12:23). Todos os salvos que têm ânsias por uma vida  aperfeiçoada têm a mesma experiência do Ap. Paulo: “E, por isso, neste tabernáculo, gememos (por causa da corrupção que ainda age em nossa vida), aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial” (2Co. 5:2). Como será essa “habitação celestial”? O Ap. João nos dá este relance: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo. 3:2). E, no livro do Apocalipse, temos esta esperança: No céu “os servos (do Senhor) o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele” (Ap. 22:3-4). O Ap. Pedro nos faz lembrar de uma verdade preciosa: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentro os mortos, para uma herança incorruptível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé para a salvação preparada para revelar-se  no último tempo” (1Pe. 1:3-5). Essa “viva esperança” nos prepara para o estado de glória, quando “a vontade do homem se tornará perfeita e imutavelmente livre para o bem só”. E, enquanto aguardamos o nosso chamado para a glória, temos esta promessa: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre” (Sl. 23:6). O Salmista tinha esta confiança: “Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança” (Sl. 17:15).


No ano de 1970, conversando com um pastor idoso e mui piedoso sobre o meu interesse na teologia dos reformadores, ele me deu este conselho, que procuro obedecer até hoje: Sim, devemos ter uma base sólida na teologia dos reformadores, mas, no púlpito, a Igreja não quer ouvir Teologia Sistemática, antes, ela quer ouvir a voz de Deus falando através das Escrituras Sagradas, pois, por meio delas, os ouvintes podem tornar-se sábios para a salvação pela fé em Jesus Cristo (2Tm. 3:15). Que esse conselho seja mais praticado nos púlpitos das nossas Igrejas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O VASO DO OLEIRO


Rev. Ivan G. G. Ross

Leitura Bíblica: Jeremias 18:1-6.

Introdução: Deus usava muitas maneiras para comunicar sua mensagem a seus profetas. Nesta leitura, Jeremias foi instruído: “Dispõe-te. E desce à casa do oleiro e lá ouvirás as minhas palavras”. E, chegando lá, ele viu o oleiro “entregue à sua obra sobre as rodas”. Estava terminando um vaso já, mas, por alguma razão, o vaso de barro “se lhe estragou na mão”. Mas o oleiro não se desanimou, pois, com o mesmo barro, “tornou a fazer outro vaso, segundo bem lhe pareceu”. Agora, tendo visto o trabalho do oleiro, o texto acrescentou: “Então, veio a Jeremias a palavra do Senhor”. E, a partir dessa experiência, nasceu uma mensagem.

Assim como no Novo Testamento as parábolas de Jesus tinham que ser interpretadas pelos ouvintes, Jeremias tinha que descobrir, com o auxílio do Espírito Santo, a mensagem que o povo precisava ouvir. Portanto, a figura do oleiro com seu barro é usada diversas vezes, em ambos os testamentos. O oleiro representa o próprio Deus, e o barro em suas mãos representa a humanidade, criada “do pó da terra” (Gn. 2:7). O primeiro vaso foi perfeito, porém, quando o pecado entrou na peça original, ela ficou “estragada”. O efeito desse pecado corrompeu a massa toda, isto é, todos os descendentes de Adão. Contudo, Deus não ficou frustrado  em seus propósitos, pois com o mesmo barro, mediante a regeneração, Ele criou um novo homem, para a sua glória eterna. O Ap. Paulo usou esse tema para exaltar a soberania de Deus. Como o oleiro tinha liberdade para usar o mesmo barro para fazer outro vaso, segundo bem lhe pareceu, assim, Deus tem a mesma liberdade. Se Deus não tivesse usado a sua soberania, o pecado teria levado toda a humanidade para a morte eterna. “Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, ter-nos-íamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra” (Rm. 9:29). Devemos sentir a maravilha de termos sido alcançados com as boas novas da salvação. Vamos seguir a sugestividade que o oleiro e o seu barro nos oferecem.

1. O Vaso Estragado:  Sabemos “que Deus fez o homem reto,  mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec. 7:29). No Jardim do Éden, ainda em seu estado de inocência, o homem extrapolou a sua liberdade, comendo o fruto proibido, (Gn. 3:17). Assim, o pecado, o sofrimento e a morte entraram na vida da humanidade.

A Confissão de Fé da nossa Igreja comenta sobre esse assunto doloroso: “Por este pecado eles (Adão e Eva) decaíram de sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma”. Mas a conseqüência do pecado não se limitou a Adão e Eva. Por isso, a Confissão de Fé acrescenta: “Sendo Ele (Adão e Eva) o tronco de toda a humanidade, o delito de seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a posteridade, que deles procede por geração ordinária”. A Confissão continua, agora, descrevendo a conseqüência dessa herança negativa:  “Desta corrupção original, pela qual ficamos totalmente indispostos, incapazes e adversos a todo bem e inteiramente inclinados a todo mal, é que procedem todas as transgressões atuais”. É de suma importância que reconheçamos a duração da corrupção. A Confissão explica: “Esta corrupção da natureza persiste durante esta vida, (inclusive) naqueles que são regenerados; e embora seja ela perdoada e mortificada por Cristo, todavia tanto ela como os seus impulsos são real e propriamente  pecado” (Conf. de Fé, VI. II a V). Creio que ninguém pode, honestamente, negar a veracidade desse ensino esclarecedor das Escrituras Sagradas. Ou, se restar ainda uma dúvida quanto à realidade dessa corrupção moral e espiritual, basta ouvir o que os meios de comunicação estão dizendo, pois eles corroboram o ensino bíblico. Não apenas essa evidência externa, mas olhando dentro da nossa própria vida, somos constrangidos a reconhecer a presença dessa mesma tendência pecaminosa.

Os povos do mundo inteiro estão pedindo paz e segurança, contudo, tais bênçãos jamais serão alcançadas enquanto o pecado estiver em plena manifestação. A Bíblia assevera: “Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz” (Is. 57:21). Quando Deus  anunciou o seu propósito para castigar o povo de Israel, eles, atrevidamente, responderam: “Não há esperança”, Deus está perdendo o seu tempo, “porque andaremos consoante os nossos projetos, e cada um fará segundo a dureza de seu coração maligno” (Jr. 18:12). Ao comentar sobre o poder do pecado na vida do homem, Cristo disse: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (Jo. 3:19). Mas, apesar dessa perversidade, o pecado pode se tornar um peso insuportável. Davi experimentou esse fardo: “Laços de morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; caí em tribulação e tristeza” (Sl. 116:3). Estamos prontos agora para ouvir sobre:

2. O Vaso Estafado. Apesar de sentir o peso estafante da sua condição, ele não está disposto a lançar a culpa sobre os pecados que pratica. Alguém lhe deu este conselho: o seu problema é a falta de uma religião em sua vida; busque uma Igreja qualquer! Com essa palavra, ele logo descobre uma Igreja que lhe agrada e lá participa das atividades religiosas que dão uma certa medida de tranqüilidade interior. À semelhança de Judas Iscariotes, escuta com paciência as pregações da Palavra de Deus, anda na companhia de outros cristãos, e assume algumas responsabilidades na vida da Igreja. Mas, apesar da sua religiosidade, ele continua praticando seus pecados prediletos. E, quando ele percebe uma oportunidade, surrupia dinheiro da bolsa do grupo. Afinal ele revela a sua natureza pervertida (traindo o Senhor por trinta moedas de prata). Sim, Judas ficou cheio de remorso por causa de seu ato infame. Mas remorso não é arrependimento. Finalmente, o pecado triunfou sobre ele, levando-o ao suicídio. Qual a lição? Religião, por si só, não salva ninguém.

Outro conselho muito popular é: faça as boas obras da lei, como Deus ordena, e todos os seus problemas serão resolvidos! Mas a lei não salva a ninguém; o seu propósito é outro. “Ninguém será justificado diante de Deus por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”(Rm. 3:20). Em vez de tranqüilizar o coração aflito, aumenta o peso da sua culpabilidade e condenação, porque o pecador não consegue cumprir as normas da lei com a perfeição que a santidade de Deus requer. Os judeus perderam a esperança da salvação por causa desse conselho infeliz. “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus. Por que o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm. 10:3-4). Quais são os dois erros principais desse conselho traiçoeiro? Ele ensina o pecador a rejeitar (inconscientemente) a justiça e a salvação que vem de Deus gratuitamente; e, a  desprezar a Pessoa e a Obra de Jesus Cristo. Quando uma pessoa procura estabelecer a sua própria justiça e salvação, a conclusão não pode ser outra: tal pessoa não sente nenhuma necessidade de reconhecer o dom gratuito de Deus, nem da obra redentora de Jesus Cristo. Feliz a pessoa que se sente retalhada no coração por causa de seus pecados e constrangido a clamar das profundezas de seu coração: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm. 7:24). Estamos prontos, agora, para ouvir sobre:

3. O Vaso Estabelecido. Religião não salva, nem santifica ninguém. E, da mesma forma, a prática das obras da lei não pode justificar o pecador diante de Deus,  pois “por obras da lei ninguém será justificado” (Gl. 2:16).  Então, como pode o vaso estragado ser estabelecido? Primeiramente, ele tem que se humilhar e acreditar nesta declaração decisiva: “Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvação. Eu anunciei salvação, realizei-a e a fiz ouvir” (Is. 43:11-12). O que é imprescindível para cada pecador é um verdadeiro encontro regenerador com o único Salvador, Jesus Cristo. O profeta vociferava: “Convertei-vos, pois, cada um do seu mau proceder e emendai os vossos caminhos e as vossas ações” (Jr. 18:11). E o Senhor Jesus advertia: “Eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependeres, todos igualmente perecereis” (Lc. 13:3). A Confissão de Fé da nossa Igreja define o arrependimento com estas palavras: “O pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos de seus mandamentos” (Conf. De Fé, Cap. XV.II). Notemos os cinco passos necessários para que o arrependimento seja verdadeiro: a) Ele não apenas sente a realidade do pecado em sua vida, mas aborrece a presença dele em todo o seu procedimento. b) Ele abandona cada um de seus pecados e, na medida do possível, tudo o que provoca a prática deles. c) Ele volta para Deus, tencionando e procurando andar com Ele em todos os caminhos de uma verdadeira santidade. d) E, implícito no reconhecimento do nosso pecado está a  confissão a Deus de todos os pecados conhecidos, lembrando  que cada pecado tem um nome específico. Fazemos isso na plena certeza de que nele há o perdão dos pecados, “pois, no Senhor há misericórdia; nele, copiosa redenção. É ele quem redime o seu povo de todas as suas iniqüidades” (1 Jo. 1:9; Sl. 130:7-8). e) A frase, “ele se volta para Deus”, fala da necessidade indispensável de uma fé inabalável na Pessoa e Obra de Jesus Cristo, descansando na suficiência da sua morte substitutiva na cruz do Calvário. “E o testemunho é este: que Deus nos deu  vida eterna; e esta  vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo. 5:11-12). Sim, o nosso destino na eternidade é decisivo; não existe nenhuma outra opção. Agora, “Aquele que diz que permanece nele (em Jesus Cristo), esse deve andar assim como ele andou” (1Jo. 2:6). Dessa maneira, o vaso será estabelecido. Estamos prontos, agora, para ouvir a:

Conclusão:  A figura do oleiro fazendo vasos de barro tem muitas lições espirituais. O oleiro representa Deus e o barro, que foi uma única massa, feita do pó da terra, representa como o homem foi criado. Em seu estado original, ele foi dotado com uma perfeita justiça, retidão e pleno conhecimento, segundo a imagem daquele  que o criou, (Ef. 4:24; Cl. 3:10). O vaso estragado representa a entrada do pecado na vida de toda a humanidade. É importante observar como o oleiro tomou o barro do vaso estragado e fez outro vaso “segundo bem lhe pareceu”. O pecado não frustrou o propósito de Deus na  criação do homem.


Sobre essas verdades, desenvolvemos os três pontos da nossa mensagem. Falamos sobre o Vaso Estragado, ou seja, a entrada do pecado na vida da humanidade. Por causa do ato de desobediência, toda a humanidade tornou-se morta em pecado e inteiramente corrompida em todas as suas faculdades e partes do corpo e alma. Assim, cada pessoa passou a ser mais amiga dos prazeres que amiga de Deus (2Tm. 3:4). Falamos sobre o Vaso Estafado. Às vezes, o homem fica estafado por causa de seus pecados que ele insiste  em praticar. Nesse estado, ele pode adotar uma religião na esperança de ganhar algum alento; ou, pode tentar uma auto-justiça pelas prática  de boas obras. Mas, nem a religião e nem as boas obras podem oferecer uma tranqüilidade na sua consciência, se continuar servindo os prazeres pecaminosos da carne. Tal frustração pode levar o homem a lamentar: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm. 7:24). Por isso, falamos sobre o Vaso Estabelecido. Devemos dar muitas graças a Deus porque Ele não abandonou o barro do vaso estragado, antes, Ele o tomou, e, pela regeneração, fez “um novo homem, criado segundo Deus em  justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef. 4:24). Tomamos  posse dessa realidade pela fé em Jesus Cristo, “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua glória” (Ef. 1:7). Que Deus nos ajude a entender, crer e praticar essas verdades bíblicas, porque elas podem nos tornar sábios para a salvação pela fé em Jesus Cristo  

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

CONFORTO CRISTÃO


Rev. Ivan G. G. Ross

A nossa leitura vem do Catecismo de Heidelberg, a pergunta e a resposta número um. Esse Catecismo foi formulado em 1563, aproximadamente 83 anos antes do Breve Catecismo da nossa Igreja Presbiteriana. Notemos que a ênfase desta pergunta introdutória nos aponta para o conforto espiritual do cristão. Outro ponto interessante nesse Catecismo é que todas as perguntas são dirigidas a um indivíduo no singular da terceira pessoa: “Qual é o seu conforto?”. E este sempre responde na primeira pessoa do singular: “O meu único conforto é”. Vamos ouvir a leitura do Catecismo para o nosso estudo.

Pergunta: “Qual é o seu único conforto na vida e na morte?”

Resposta: “O meu único conforto é que – corpo e alma, na vida e na morte – não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que ao preço de seu próprio sangue pagou totalmente por todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do pecado. Ele me protege tão bem que, contra a vontade de meu Pai, no céu, não perderei nem um fio de cabelo. Na verdade, tudo coopera para o meu bem e para a minha salvação. Portanto, pelo seu Espírito Santo, Ele me garante a vida eterna e me torna disposto a viver para Ele daqui em diante, de todo o coração”.

A fim de facilitar a compreensão da resposta, dividimos o assunto em quatro pontos acessíveis.

1. Conforto na Profissão. Estamos professando qual é o nosso conforto espiritual. “O meu conforto é que – corpo e alma, na vida e na morte – não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo”. Observamos o que o Catecismo está afirmando:

O nosso ser é composto de duas partes identificáveis: corpo físico e alma invisível. Em todas as nossas atividades e atitudes, essas duas partes estão presentes. Para amar o Senhor, nosso Deus, temos que usar essas duas partes; somos uma unidade. Com o corpo, realizamos os desejos da alma. Assim, somos exortados para apresentar o nosso corpo vivo, santo e agradável a Deus, que é o nosso culto racional (Rm. 12:1). Juntamente com o nosso corpo, manifestamos o desejo da nossa alma. “Servi ao Senhor com alegria (com o que a alma sente), apresentai-vos diante dele (corpo e alma) com cânticos” (Sl. 100:2). Culto a Deus sempre envolve a totalidade do nosso ser, corpo e alma.

E, semelhantemente, o nosso ser tem duas experiências: vida e morte; temos um início e teremos um dia final. Portanto, os interesses desta vida devem estar nos conduzindo e nos preparando para a morte que está se aproximando, inexoravelmente. Mas, depois da morte, o quê? E, assim como aos homens está ordenado a morrerem uma só vez, vindo depois disto, o juízo”(Hb. 9:27). Por causa da morte e do juízo vindouro, entendemos a razão da pergunta: “Qual é o seu único conforto na vida e na morte?”. Aquele que crê em Jesus Cristo como o seu Salvador, pode responder, confiantemente: “O meu único conforto  é que ... não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo”.  A nossa vida não está em nossas próprias mãos, que jamais poderiam nos salvar, mas, sim,  na mão do nosso fiel Salvador, que garantiu às suas ovelhas: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo. 10:28). Eis o conforto que temos em Cristo Jesus.

2. Conforto na Provisão. Estamos falando sobre o conforto que a providência de Deus, em Jesus Cristo, nos oferece. Qual é a base da nossa confiança em Jesus Cristo como nosso fiel Salvador? Confiamos na provisão e suficiência da sua morte substitutiva, “que ao preço de seu próprio sangue pagou totalmente por todos os meus pecados”.  O Ap. Pedro afirma: “Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que os vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1Pe 1:18-19). A doutrina da nossa redenção é indizivelmente preciosa, porque, como pecadores, pertencíamos ao senhor das trevas, a  saber, o diabo; mas Cristo interveio e pagou o preço do nosso livramento. Por isso, o Catecismo enfatiza: “Não pertenço a mim mesmo (e nem às trevas), mas, ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo”.  Agora, qual é o nosso dever? O Apóstolo  responde: “Porque fostes comprados por preço,  agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (1Co. 6:20). Mas, devemos fazer mais uma pergunta: Qual é a eficácia moral e espiritual do sacrifício de Jesus Cristo? O Catecismo responde: Que Cristo “me libertou completamente do domínio do pecado”. O Catecismo não está dizendo que fomos libertados do pecado a ponto de não pecarmos mais, antes, está falando sobre o domínio, a tirania do pecado. Antes do nosso encontro libertador com Cristo, o domínio, a presença do pecado, caracterizava a totalidade do nosso procedimento; “ a concupiscência (ambições) da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo. 2:16). Éramos “mais amigos dos prazeres do que de Deus” (2Tm. 3:4). Mas desta escravidão, Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho de seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl. 1:13-14). Nesse novo estado, o domínio, o controle do pecado, perdeu a sua força; por isso, o Apóstolo podia afirmar: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei e sim da graça” (Rm. 6:14). Um novo princípio, a graça de Deus, está operando em nós. O Apóstolo explicou: “Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isto é, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós,  que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm. 8:3-4). Por causa do Espírito que habita em nós, o pecado não tem domínio, não tem controle absoluto sobre nós. “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm. 8:14). Sim, as providências de Deus em nosso favor são uma fonte de conforto espiritual.

3. Conforto na Proteção. Esta proteção é espiritual e não necessariamente física; embora Deus fosse servido, em muitas ocasiões, ter nos libertado de diversos perigos, (At. 12:11). O Apóstolo no conforta, dizendo: “Sois guardados pelo poder de Deus, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe. 1:5). E, para garantir essa proteção espiritual, o Catecismo afirma: “Deus me protege tão bem, que, contra a vontade de meu Pai no céu, não perderei nem um fio de cabelo”. Quando Cristo falou sobre essa proteção, o contexto foi de perseguição, traições e morte física. Sim, todas essas coisas podem acontecer aos fiéis a Deus, porém, somente com a sua soberana permissão. Uma das doutrinas que temos de aprender e aceitar, com um coração agradecido, é a soberania de Deus. Ele é o Rei de toda a terra. Ele se assenta no seu santo trono,  controlando, soberanamente, todos os movimentos dentro dos reinos (Sl. 47:6-9). Quando conseguimos acreditar nessa verdade, o nosso coração se enche cheio de conforto e de gratidão.

O Catecismo continua  falando sobre o conforto espiritual  que a soberania de Deus nos confere: “Na verdade tudo coopera para o meu bem e a minha salvação”. Vejam como o Apóstolo fala sobre a mesma  verdade: “Sabemos que todas as coisas cooperam  para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm. 8:28). Com essa certeza na soberania de Deus, o Apóstolo podia desafiar qualquer pessoa a responder o  contrário: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas ao matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou” – Jesus Cristo, (Rm, 8:35-37). Mas, antes de terminar, devemos mencionar algo sobre as restrições desse texto em Romanos. O fato de que todas as coisas, boas ou ruins, cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que pertencem única e exclusivamente a Ele, significa que essa promessa, de necessidade, exclui os que não pertencem a Deus, que não crêem em Jesus Cristo. Quando as coisas negativas acontecem aos descrentes, em vez de cooperarem para o bem deles, elas os preparam para vislumbrar o juízo vindouro. O nosso conforto espiritual fica enriquecido sabendo que o Senhor “distingue para si o piedoso” (Sl. 4:3).

4. Conforto na Promissão. A promessa do Espírito Santo é mais uma verdade preciosa que contribui para o nosso conforto espiritual, porque é Ele que “me garante a vida eterna”. Como? “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” – e, portanto, herdeiros da vida eterna, (Rm. 8:16-17). Somos ensinados que o Espírito Santo é o nosso Consolador. Ele nos consola, dirigindo-nos a Jesus Cristo, no qual temos toda a nossa suficiência. “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo. 15:26). Ele é, também, o nosso Auxiliador, aquele que está ao nosso lado para nos assistir “em nossa fraqueza, porque não sabemos orar (e nem realizar qualquer outro ato em nosso culto e serviço a Deus) como convém” (Rm. 8:26). Quando temos oportunidade para testemunhar da nossa fé em Cristo, nem sempre sabemos o que falar, mas, novamente, o Espírito Santo  traz à nossa memória o que convém falar, (Mc. 13:11).E, em nossa luta contra o assédio do pecado, o Espírito Santo está ao nosso lado para nos auxiliar a sufocar a tentação. “Porque se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (Rm. 8:13). Enfim, é o Espírito Santo que nos conforta e auxilia em todas as áreas da nossa vida, para que alcancemos  um padrão santo e irrepreensível.

O Catecismo nos mostra mais uma promessa preciosa: “O Espírito Santo... me torna disposto a viver para Ele daqui em diante, de todo o coração”. O Apóstolo descreve essa disposição usando estas palavras: “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira. Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos. Desejamos, porém, continue cada um de vós, mostrando, até ao fim, a  mesma diligência para a plena certeza da esperança, para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas” (Hb.6:9-12). A chave dessa disposição: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl. 5:16). É o Espírito Santo que nos torna dispostos a viver e a perseverar na vida cristã. Por isso, o Apóstolo orava a Deus “para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef. 3:15). Certamente poderíamos falar muito mais sobre o ministério do Espírito Santo na vida  dos que são redimidos pelo sangue de Jesus Cristo, mas temos que aguardar outra oportunidade.

Conclusão: O ministério dos Catecismos das Igrejas Reformadas tem ajudado e enriquecido a vida espiritual do povo de Deus na compreensão das Escrituras Sagradas. Que possamos valorizar a herança espiritual  que a Reforma do Século XVI nos legou. O Breve Catecismo da nossa Igreja, em sua primeira pergunta, fala do nosso dever diante de Deus e responde: “ O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo (ter prazer nele) para sempre”. E a primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg fala sobre o conforto espiritual que temos em Cristo Jesus. “O meu único conforto é que – corpo e alma, na vida e na morte – não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo”. Observemos a seqüência nas respostas destes dois Catecismos: primeiro, o  cumprimento do nosso dever para com Deus, e a recompensa será um conforto, uma certeza em nossa experiência espiritual, na vida e na morte. Esse conforto pode ser traduzido em termos de paz. “Todos os  filhos serão ensinados pelo Senhor; e será grande a paz de seus filhos” (Is. 54:13). Lembrando de uma maneira especifica que Jesus Cristo “ é nossa paz” (Ef. 2:14).


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

AMOR – Um Caminho Sobremodo Excelente


Leitura Bíblica: 1Coríntios 13:1-13

Introdução: Em nossos dias, não faltam exortações para amar uns aos outros. Todo mundo sabe que devemos praticar esta obrigação básica, para que haja paz em todos os setores da nossa sociedade. Contudo, parece que ninguém consegue praticar esse dever com a devida perfeição. Por que é tão difícil amar uns aos outros? Porque para amar, como a Bíblia nos ensina, temos que estar dispostos a dar a própria vida em favor do nosso irmão. Cristo praticou esse tipo de amor, dando a sua vida em favor de seu povo. “Nisto conhecemos o amor: que Cristo  deu a sua vida por nós; e devemos dar a nossa própria vida pelos irmãos” (1Jo. 3:16). Eis o problema que  impede a devida prática desse amor. Alguns, talvez, estejam prontos para auxiliar em alguma causa, porém, não a ponto de dar a própria vida. Por causa do pecado que habita em nós, tornamo-nos radicalmente egoístas.  Queremos viver a nossa vida de acordo com os nossos próprios impulsos egoístas. O Apóstolo descreve esta característica, dizendo: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes”,  e segue-se uma lista longa das manifestações desse egoísmo, (2Tm. 3:1-5). Somente o poder regenerador e renovador do Espírito Santo pode subjugar essas tendências egoísticas  que assediam o ser humano. Mas, regenerados, temos o poder necessário para amar uns aos outros. Qual é a melhor evidência de que somos nascidos de novo? “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1Jo. 4:7). Vamos seguir as explicações que o Apóstolo nos dá em 1Coríntios, capítulo 13.

1. A Perfuração do Amor, Vs. 1-3 (sofreu um desfalque). O Apóstolo começa  explicando o seu propósito: “Eu passo a oferecer-vos ainda  um caminho sobremodo excelente”. E esse caminho que temos que trilhar tem uma só direção, a prática de um amor que não admite nenhum outro rival, um amor que envolve a totalidade do nosso ser. O padrão é este: “O principal é: Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc. 12:30-31).

O Apóstolo cita cinco atos, que são atividades do culto que oferecemos ao nosso Deus, porém, mostrando como eles podem ser usurpados por falsos obreiros, e, portanto, ficar perfurados e esvaziados de seu valor diante de Deus, porque não são realizados com o devido amor. Cada ato em nosso serviço espiritual deve ser feito “como ao Senhor”, sem qualquer mistura de ambições pessoais. O escritor Judas fala de uma tendência repreensível entre muitos homens, especialmente aqueles que têm responsabilidades públicas: “São aduladores dos outros por motivos interesseiros” (Jd.16). Não são manifestações de um amor sincero, antes, são dissimulações feitas  para fins interesseiros. Os dons de Deus não são necessariamente retirados quando usados para fins gananciosos, podem impressionar os ouvintes, porém, não são abençoados por Deus, porque não são utilizados com amor e nem para a glória de Deus. Veja os exemplos oferecidos pelo Apóstolo.

a)      Línguas, o dom de comunicação verbal, pode soar com eloqüência, como se fosse a voz de anjo, mas sem o toque do amor, pode ecoar “como o bronze que soa ou como o címbalo que retine”, bonito para ouvir, porém de pouco valor, porque não tem a unção do amor. Pastores têm que ser cuidadosos para não confiar, indevidamente, na suficiência de seus dons, porque podem excluir o amor aos ouvintes.
b)      Profetizar, o dom de proclamar os oráculos de Deus. E, para exercer este ministério, é importante um bom conhecimento de “todos os mistérios e toda a ciência”; porém, pode ser anulado, quando usado para fins pessoais. O Apóstolo Paulo tinha o dom da profecia, contudo, ao entrar em Corinto, ele confessou que não foi enviado para expor a sua cultura, “mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavras, para que se não anule a cruz de Cristo” (1Co. 1:17). Não convém misturar  a pregação com exibicionismo, antes, deve ser a manifestação de um amor sincero aos ouvintes.
c)      Fé é um dom de suma importância, porque, sem ela “é impossível agradar a Deus”, porém, pode ser usada inapropriadamente como os demais dons de Deus. Em nossos dias, muita coisa estranha é praticada em nome de fé. Existe até um jornal cujo título é: “Show da Fé”, que publica os milagres que estão acontecendo. Contudo, devemos questionar a espiritualidade dessas apresentações, porque a Bíblia nos adverte: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o  amor de verdade para serem salvos” (2Ts. 1:9-10). Cristo também nos advertiu  sobre o perigo desse tipo de fé, dizendo: “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt. 24:24). Fé, sem o acréscimo do amor, pode conduzir à perdição, lembrando que, nesse contexto, o falso profeta não produz os seus sinais como uma manifestação de amor, antes, é o oposto, ele usa a esperteza para iludir os incautos.
d)       Boas obras, a distribuição dos bens pessoais, podem impressionar, porém, quando feito sem um amor sincero aos pobres, não vale de nada. Os fariseus praticavam a distribuição de esmolas, só para serem vistos pelos homens, e não por um amor aos necessitados, (Mt. 23:5). É o amor não fingido que dá sentido às nossas contribuições.
e)      E, por fim, a dádiva máxima, a entrega  da própria vida em serviço ao próximo, pode dar a aparência de dedicação, porém, quando dada somente para perpetuar o seu nome entre os heróis, ou por outros motivos interesseiros, não tem valor algum; porém, quando dada com a mesma atitude do Ap. Paulo, sim, tem valor, porque Deus é glorificado. Eis a disposição do Apóstolo: “Porém, em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At. 20:24). Essa é a linguagem de um amor singular e uma dedicação que almeja somente a glória de Deus. Que tenhamos o mesmo amor.

2. A Percepção do Amor, Vs 4-7. O Apóstolo  acabou de falar de uma triste realidade: é possível usar os dons de Deus por motivos de auto-promoção. Essa prática foi reconhecida no tempo dos Apóstolos e condenada, porque não era uma manifestação do amor cristão. Apesar dos sinais e milagres, não é necessariamente uma prova de que o operador é um servo de Deus. Sobre esse assunto, Cristo comentou: “Muitos naquele dia (do juízo vindouro), hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” – os que praticais sinais em nome da fé, sem amor a Deus e sem amor aos que assistem os seus trabalhos, (Mt. 7:22-23).

Por isso, o Apóstolo passa a descrever, de uma maneira precisa, a natureza do amor que identifica o verdadeiro servo de Deus. Com quinze palavras escolhidas, somos instruídos quanto à abrangência desse amor que temos que demonstrar em todas as nossas atividades e atitudes pessoais. Sete dessas palavras têm um sentido positivo, o amor é; e oito, um sentido negativo, o amor não pratica: O amor não convizinha com atitudes negativas.

a)      As atitudes Positivas: (01) O amor é paciente, podendo suportar adversidades sem sentir mágoa ou desejo de vingança. (02) O amor é benigno, bondoso, não apenas fazendo o bem, mas busca oportunidade para consolar os entristecidos. (03) O amor regozija-se com a verdade, tem prazer em apoiar os obreiros que têm a mensagem bíblica e evangélica. (04) O amor tudo sofre, suportando com paciência os adversários e perdoando as suas maldades. (05) O amor tudo crê. O amor não destrói a prudência, visto que a mentira é prática comum; porém, temos que acreditar na sinceridade do irmão quando ele faz uma afirmação quanto ao seu procedimento. (06) O amor tudo espera. Temos que nutrir esperanças positivas quando vemos um irmão novo na fé lutando  contra o assédio do pecado. (07) O amor tudo suporta, porque “o amor cobre todas as transgressões “ (Pv. 10:12).
b)      As atitudes Negativas: (01) O amor não arde de ciúmes, não se magoa ao ver a prosperidade de seu vizinho ímpio, enquanto ele, que teme a Deus, permanece com o mínimo. (02) O amor não se ufana, não fica envaidecido por causa de seus dons espirituais. (03) O amor não se ensoberbece quando eleito como oficial na Igreja. O diabo caiu por causa desse pecado, (1Tm. 3:6). (04) O amor não se conduz inconvenientemente. O oficial, bem como os demais membros da Igreja, têm  que apresentar uma vida santa e irrepreensível, sem  a qual ninguém verá o Senhor. (05) O amor não procura os seus interesses, não ofende os outros no anseio de garantir os seus próprios direitos. “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp. 2:4). (06) O amor não se exaspera, não se irrita ou se enfurece por causa dos erros de um irmão inexperiente na fé. (07) O amor não se ressente do mal, não fica acusando precipitadamente o seu vizinho que possivelmente agiu com ingenuidade. (08) O amor não se alegra com a injustiça, quando esta é dirigida inadvertidamente contra um irmão que é ainda fraco na fé. A disciplina eclesiástica tem que ser cuidadosa nesse ponto. Sim, a justiça imparcial é necessária e, quando praticada no temor do Senhor, regozijamo-nos com a prevalência da verdade, O amor é tão abrangente que temos de usar o domínio próprio em cada área da nossa vida. O amor é o caminho sobremodo excelente, porém, tem que ser praticado.

3. A Permanência do Amor, Vs 8-12. Nestes versículos, o Apóstolo está nos conduzindo do presente para o futuro, ou enquanto estamos na terra, podemos vislumbrar algumas realidades no céu. O Apóstolo começa esta parte falando sobre a permanência do amor. Tudo passa, porém o amor continua. Devemos lembrar que o amor cristão, que agora temos, é o dom de Deus; e Ele mesmo nos instruiu  quanto ao seu uso: “Deveis amar-vos uns aos outros” (1Ts.4:9). E, por ser o dom de Deus, é irrevogável, portanto, continuará sendo uma parte inseparável do nosso caráter na eternidade celestial, “ O amor jamais acaba” (Rm. 11:29).

Cremos que o amor continuará na eternidade porque “Deus é amor”. Porém, muitas outras coisas que foram  importantes  aqui na Terra, desaparecerão no porvir. O Apóstolo fala de três itens que não terão utilidade no céu:

a)      “Havendo profecias, desaparecerão”. Profecias, a pregação do evangelho, a fim de arrebanhar todos os que são redimidos pelo Senhor, não terão mais sentido, visto que todos os que iriam ser salvos, já estão na glória.
b)      “Havendo línguas cessarão”. Línguas, a causa de tantas dificuldades na área da comunicação, será definitivamente resolvida no céu, porque haverá uma única linguagem, que o próprio Deus usará para falar com o seu povo redimido. E os habitantes no céu? “Então, darei lábios puros (linguagem pura) aos povos, para que todos invoquem o nome do Senhor e o sirvam de comum acordo” (Sf. 3:9).
c)      Havendo ciência, passará”. Ciências humanas, que são indispensáveis para o nosso bem estar aqui na terra, não terão valor no céu, porque as nossas necessidades serão diferentes. Na vida celestial, estaremos ocupados aprendendo, de uma maneira mais precisa, “qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm. 12:2).

Tudo na Terra tem as suas limitações, “porque em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos (dando instruções). Quando, porém, vier o que é perfeito (o encerramento do mundo conhecido e a entrada na glória), então, o que é em parte será aniquilado”. Aguardemos, ansiosamente, a vinda do que é perfeito.

O Apóstolo nos traz de volta para enfatizar uma das responsabilidades mais prementes, enquanto  peregrinamos rumo aos céus: a necessidade de “crescer na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe. 3:18). Veja como o texto expressa essa necessidade: “ Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino”. A criança passa o seu tempo brincando, nada tem importância senão o seu próprio prazer; porém, chegando os anos de maturidade, tem que enfrentar as responsabilidades da sua idade. Existem cristãos que ficam como crianças, vivendo na imaturidade. Mas o Senhor pede de cada um de nós que procuremos “progredir, para a edificação da Igreja” (1Co. 14:12). O escritor lamentava do estado espiritual dos cristãos hebreus: “Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os principais elementos dos oráculos de Deus; assim vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades  exercitadas para discernir não somente o bem mas também o mal” (Hb. 5:12-14). As nossas limitações do presente não devem ser usadas para justificar a nossa indolência  espiritual. O Profeta lamentava, dizendo: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta conhecimento” (Os. 4:6). Sim, reconhecemos a nossa letargia em progredir espiritualmente; porém, não fiquemos desanimados e nem omissos no anseio de  adquirir mais conhecimento da graça de Deus. “Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conhecemos em parte; então, conhecerei como também sou conhecido”. Novamente, anelamos aquele “então”, quando seremos livres para louvar a Deus para todo o sempre, sem as limitações desta vida.

Conclusão: A Persistência do Amor. O Apóstolo termina deixando-nos contemplar os três grandes pilares da vida cristã, enquanto aguardamos a nossa entrada no céu: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor”. A fé não terá mais necessidade, porque estaremos contemplando as realidades espirituais face a face. Semelhantemente, a esperança não terá mais sentido, porque estaremos vivendo o pleno cumprimento das promessas que alimentaram a nossa perseverança. No céu, estaremos vivendo as perfeições do amor, porque é ele que persiste depois de deixar esta vida a fim de entrarmos no céu, onde estaremos contemplando, adoravelmente, o rosto do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Amém.